O CHEIRO DO RALO

Confesso que fui ver O CHEIRO DO RALO com algumas reservas. Todo confeti jogado pela crítica, o marketing do “Filme Independente”, os holofotes que se acenderam após a exibição do filme no Festival de Sundance, era muito barulho. MAS esse segundo longa de Heitor Dhalia, mais um pernambucano da nova geração de cineastas brasileiros, mostrou um trabalho maduro e com momentos fenomenais nesse tal O CHEIRO DO RALO. O roteiro é baseado na obra de Lourenço Mutarelli, que aparece como ator no filme no papel do segurança de Selton Mello, que interpreta Lourenço, um amargo comprador de objetos usados. O interessante no filme é justamente o desfile de personagens que vão do bizarro ao poético nas figuras dos clientes de Lourenço que vendem para ele os mais diversos objetos. Entre essas figuras vemos desde o jornalista Xico Sá até o ator Flavio Bauraqui. O ralo do título fica no escritório de Lourenço e emana um odor desagradável que é lembrado pelo protagonista durante todo o filme. O ralo como símbolo circular se conecta a um olho de vidro vendido por um estranho cliente. Esses dois elementos ajudam a criar toda a teia de paranóia que começa a ser tecida por Lourenço. No meio dessa teia surge a BUNDA da garçonete, a obsessão de Lourenço, o fetiche absoluto que guiará toda a paranóia e terá vital influência até na relação sádica e de um humor cada vez mais ácido que Lourenço tem com as criaturas que surgem em seu escritório para vender seus estranhos objetos que vão de caixinhas de música até pernas mecânicas japonesas. Susana Alves aparece como uma figura fetichista vestida de rosa que apresenta uma espécie de aula de ginástica que fascina o amargo e paranóico Lourenço. A sexualidade, a violência e a escatologia são trabalhadas no filme com muita competência aproveitando a prosa de um humor irresistível de Mutarelli. Cruel esse humor, politicamente incorreto para alguns, mas muito bom, muito bom mesmo. Embora o roteiro até indique na parte final uma possibilidade de redenção para Lourenço, a trama se encaminha para um desfecho cruel e delirante. Uma boa surpresa esse filme de Dhalia com ótima atuação de Selton Mello que encarna muito bem o universo de estranhezas e amarguras de Lourenço Mutarelli. Quem sai ganhando no final, além do espectador, é o Cinema Brasileiro...