AS SAFADAS DE REICHENBACH, ARAÚJO E MELIANDE

Os Deuses do Cinema mais uma vez me abençoaram e aplacaram as dores da minha solidão nesses tempos bicudos com um delicioso filme que meu adorado Canal Brasil programou nessa Sexta-Feira Santa dos Católicos: AS SAFADAS. Segundo o Inácio Araújo, em 1982 o Mestre A P Galante mandou três equipes filmarem uma produção em tempo recorde e com pouco orçamento, os tempos estavam difíceis naquele início dos anos 80. Dirigindo cada uma de suas equipes estavam três distintos cavalheiros: CARLOS REICHENBACH, assinando o episódio A RAINHA DO FLIPERAMA, INÁCIO ARAÚJO, assinando o episódio UMA AULA DE SANFONA e ANTÔNIO MELIANDE assinando o episódio BELINHA, A VIRGEM. O resultado é um diamante bruto da gloriosa Boca do Lixo Paulistano que merece ser descoberto e redescoberto em sua força de um visceral “Cinema de Resistência” onde das extremas dificuldades de produção surge algo único e que os jovens e mimados cineastas brasileiros de hoje, em sua maioria, não conhecem. AS SAFADAS é uma tríade de histórias sem verniz, sem “filtros” e com um charme precioso que o tempo não apagou. O filme abre com o episódio: A RAINHA DO FLIPERAMA onde o Carlão consegue em trinta minutos construir uma história que mistura sensíveis elementos do melodrama com o erotismo necessário para agradar os espectadores das produção da Boca do Lixo. Zilda Mayo, surge em cena como Reginéia, idolatrada pelos freqüentadores de uma casa de diversões eletrônicas onde vence apostas nas velhas máquinas de Pin Ball. Sua primeira frase para um desafiante é sensacional: “Ei garotão, você que é o bom da Vila Matilde?’ Sensacional... O encontro de Reginéia com um antigo amor faz ela repensar a vida voltando a cidade natal e tentando uma reconciliação com a ausente figura materna. A bela fotografia desse segmento também é do Reichenbach e particularmente na cena de sexo entre a protagonista e o antigo namorado, proporciona belas imagens onde os corpos são “pintados” por luminosidades de efeito pictórico. Em meio a essa seqüência um belo texto é narrado em off pelo próprio Carlão. O final mostra Reginéia voltando ao mundo que escolheu, ao lado do amante cafajeste e ao som de uma sonoridade paraguaia bem característica. Belo segmento esse, que na verdade se chama A RAINHA DO FLIPER, embora oficialmente apareça em várias fontes como A Rainha do Fliperama. Como fotógrafo o Carlão cria, mesmo com a ausência de grandes recursos, inspiradores enquadramentos. Seu lado cinéfilo fica claro quando o antigo namorado de Reginéia fala de dois professores de seus tempos de colégio: o alemão de tapa-olho chamado Fritz, numa referência a Lang e de um japonês chamado Mizoguchi. Já em 1982 as personagens já comentam sobre o fechamento de salas de cinema nos subúrbios e cidades do interior, numa triste profecia do que viria depois. O segundo episódio: UMA AULA DE SANFONA, tem direção, roteiro e edição do Inácio Araújo. O primeiro plano do segmento mostra um prédio com três janelas abertas e com as luzes acesas. A câmera escolhe uma dessas janelas onde vemos um casal se despindo antes do sexo que acontece após bofetadas. Acompanhamos a partir desse momento o cotidiano de duas amigas do interior e seu relacionamento com um sanfoneiro interpretado por Cláudio Mamberti. Os desdobramentos dessa relação passam por cenas de masturbação no chuveiro e o orgasmo finalmente atingido por uma das jovens justamente com o sanfoneiro que ela humilhava chamando-o de gordo. O final é genial e surpreendente. O Inácio escreveu na Ilustrada nessa sexta que não gostou muito do resultado final, mas esse segmento tem muitas qualidades e mostra muito da sua cultura cinematográfica refinada. O último episódio é do Antônio Meliande com o título de BELINHA, A VRGEM. Esse segmento é o mais engraçado dos três, trabalhando com elementos clássicos da Pornochanchada. Vemos a safadinha protagonista virgem dando golpes em velhos tarados sem perder a virgindade, leia-se o cabaço. Como arma secreta ela usa sua poderosa calcinha preta. Um dos velhinhos safados atende pelo hilário nome de Comendador Passaralho, só para se ter uma idéia do que rola nesse segmento. Na verdade a tal Belinha atende os clientes para comprar o enxoval de casamento com um rapaz de família tradicional. A frase final é absurda e super machista e mais ou menos diz:”Minha filha vc pode ir até certo ponto com os homens, mas o cabaço vc deve guardar para o marido”, assim aconselhou a mãe de Belinha. Sem comentários. Foi muito prazeroso descobrir esse Diamante Bruto da Boca do Lixo que eu nunca tinha visto antes. Essas descobertas sempre me trazem uma incontrolável vontade de conhecer mais e mais filmes que ficaram esquecidos e que merecem renascer através das novas mídias. Mesmo com mil problemas sérios o Canal Brasil é o único espaço que temos para redescobrir o nosso cinema, o único canal que traz de volta a obra dos Mestres Fundadores da Boca do Lixo, mas ainda falta muito para que todos tenham sua possibilidade de renascer para que as novas gerações vejam COMO ERA GOSTOSO O NOSSO CINEMA...








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