Mondo Paura - Um Blog para Cinéfilos Extremos de Marcelo Carrard


07/04/2007


AS SAFADAS DE REICHENBACH, ARAÚJO E MELIANDE

 

Os Deuses do Cinema mais uma vez me abençoaram e aplacaram as dores da minha  solidão nesses tempos bicudos com um delicioso filme que meu adorado Canal Brasil programou nessa Sexta-Feira Santa dos Católicos: AS SAFADAS. Segundo o Inácio Araújo, em 1982 o Mestre A P Galante mandou três equipes filmarem uma produção em tempo recorde e com pouco orçamento, os tempos estavam difíceis naquele início dos anos 80. Dirigindo cada uma de suas equipes estavam três distintos cavalheiros: CARLOS REICHENBACH, assinando o episódio A RAINHA DO FLIPERAMA, INÁCIO ARAÚJO, assinando o episódio UMA AULA DE SANFONA e ANTÔNIO MELIANDE assinando o episódio BELINHA, A VIRGEM. O resultado é um diamante bruto da gloriosa Boca do Lixo Paulistano que merece ser descoberto e redescoberto em sua força de um visceral “Cinema de Resistência” onde das extremas dificuldades de produção surge algo único e que os jovens e mimados cineastas brasileiros de hoje, em sua maioria, não conhecem. AS SAFADAS é uma tríade de histórias sem verniz, sem “filtros” e com um charme precioso que o tempo não apagou. O filme abre com o episódio: A RAINHA DO FLIPERAMA onde o Carlão consegue em trinta minutos construir uma história que mistura sensíveis elementos do melodrama com o erotismo necessário para agradar os espectadores das produção da Boca do Lixo. Zilda Mayo, surge em cena como Reginéia, idolatrada pelos freqüentadores de uma casa de diversões eletrônicas onde vence apostas nas velhas máquinas de Pin Ball. Sua primeira frase para um desafiante é sensacional: “Ei garotão, você que é o bom da Vila Matilde?’ Sensacional... O encontro de Reginéia com um antigo amor faz ela repensar a vida voltando a cidade natal e tentando uma reconciliação com a ausente figura materna. A bela fotografia desse segmento também é do Reichenbach e particularmente na cena de sexo entre a protagonista e o antigo namorado, proporciona belas imagens onde os corpos são “pintados” por luminosidades de efeito pictórico. Em meio a essa seqüência um belo texto é narrado em off pelo próprio Carlão. O final mostra Reginéia voltando ao mundo que escolheu, ao lado do amante cafajeste e ao som de uma sonoridade paraguaia bem característica. Belo segmento esse, que na verdade se chama A RAINHA DO FLIPER, embora oficialmente apareça em várias fontes como A Rainha do Fliperama. Como fotógrafo o Carlão cria, mesmo com a ausência de grandes recursos, inspiradores enquadramentos. Seu lado cinéfilo fica claro quando o antigo namorado de Reginéia fala de dois professores de seus tempos de colégio: o alemão de tapa-olho chamado Fritz, numa referência a Lang e de um japonês chamado Mizoguchi. Já em 1982 as personagens já comentam sobre o fechamento de salas de cinema nos subúrbios e cidades do interior, numa triste profecia do que viria depois. O segundo episódio: UMA AULA DE SANFONA, tem direção, roteiro e edição do Inácio Araújo. O primeiro plano do segmento mostra um prédio com três janelas abertas e com as luzes acesas. A câmera escolhe uma dessas janelas onde vemos um casal se despindo antes do sexo que acontece após bofetadas. Acompanhamos a partir desse momento o cotidiano de duas amigas do interior e seu relacionamento com um sanfoneiro interpretado por Cláudio Mamberti. Os desdobramentos dessa relação passam por cenas de masturbação no chuveiro e o orgasmo finalmente atingido por uma das jovens justamente com o sanfoneiro que ela humilhava chamando-o de gordo. O final é genial e surpreendente. O Inácio escreveu na Ilustrada nessa sexta que não gostou muito do resultado final, mas esse segmento tem muitas qualidades e mostra muito da sua cultura cinematográfica refinada. O último episódio é do Antônio Meliande com o título de BELINHA, A VRGEM. Esse segmento é o mais engraçado dos três, trabalhando com elementos clássicos da Pornochanchada. Vemos a safadinha protagonista virgem dando golpes em velhos tarados sem perder a virgindade, leia-se o cabaço. Como arma secreta ela usa sua poderosa calcinha preta. Um dos velhinhos safados atende pelo hilário nome de Comendador Passaralho, só para se ter uma idéia do que rola nesse segmento. Na verdade a tal Belinha atende os clientes para comprar o enxoval de casamento com um rapaz de família tradicional. A frase final é absurda e super machista e mais ou menos diz:”Minha filha vc pode ir até certo ponto com os homens, mas o cabaço vc deve guardar para o marido”, assim aconselhou a mãe de Belinha. Sem comentários. Foi muito prazeroso descobrir esse Diamante Bruto da Boca do Lixo que eu nunca tinha visto antes. Essas descobertas sempre me trazem uma incontrolável vontade de conhecer mais e mais filmes que ficaram esquecidos e que merecem renascer através das novas mídias. Mesmo com mil problemas sérios o Canal Brasil é o único espaço que temos para redescobrir o nosso cinema, o único canal que traz de volta a obra dos Mestres Fundadores da Boca do Lixo, mas ainda falta muito para que todos tenham sua possibilidade de renascer para que as novas gerações vejam COMO ERA GOSTOSO O NOSSO CINEMA...

Escrito por Marcelo Carrard às 01h28
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05/04/2007


Pra não dizer que não falei de 300

 

Bem, ontem fui conferir o tal 300, mais para ver a transposição da Graphic Novel do Frank Miller para as telas, para ver o compatriota Santoro e para ver o Gerard Butler, claro, entre outros motivos. Muita gente fez leituras sérias, até políticas do filme, e teve gente que levou tudo muito a sério. Então faço algumas observações um pouco mais bem-humoradas, porque afinal a vida é curta demais para ser levada tão a ferro e fogo assim. Bem, pra começar, o grande defeito do filme, são as desnecessárias seqüências paralelas com a tal Rainha que tem a sensualidade de uma Couve de Bruxelas. Na Grécia daqueles tempos as mulheres tinham uma função secundária e ela está ali no filme, participativa, mais por uma questão mercadológica para o público feminino ter uma heroína feminina para se identificar. Se ela aparecesse no início e no final o filme ficaria bem melhor e a transa dela com o Rei Leônidas é uma das coisas mais brochantes que eu já vi na vida. Para os machões que vão ver o filme, as únicas seqüências de efeito erótico são a do Oráculo onde uma espécie de Ninfa-Médium entra em transe, num momento de rara beleza onde a moça paga peitinho, e na cena em que Xerxes seduz como um Fausto estilizado o corcunda em meio a um bando de boazudas. O resto é puro homoerotismo com o elenco masculino bombado e de sunga gritando e lutando. O engraçado é o romantismo piegas do Rei Leônidas falando de sua amada esposa toda hora quando todo mundo sabe o que os guerreiros gregos musculosos faziam entre si nos intervalos das batalhas... Ta boa Leônidas? He he he... Bom os momentos das batalhas são excelentes, muito bem realizados com destaque absoluto para os momentos mais violentos como o do confronto com os guerreiros monstruosos de Xerxes, com mutilações, sangue e o que interessa nessas horas em um épico estilizado. Os monstros são muito interessantes e tem um visual meio retrô saídos dos velhos Pepluns italianos que mostravam as aventuras de Hércules, Maciste e outros. Aliás a cena em que Leônidas escala a colina de pedras até o Oráculo me remeteu diretamente ao clássico de Mario Bava: Hércules no Centro da Terra. É de um forte impacto visual essa seqüência do oráculo, de beleza barroca. A chuva de flechas, a queda dos soldados persas no penhasco, o encontro do menino Leônidas com o lobo, muitas são as sequências de refinado apuro visual. O Xerxes de Rodrigo Santoro é muito estiloso, seu inglês sem sotaque vai levar esse menino longe em Hollywood para terror dos invejosos de plantão. Sua figura calva com os piercings já entrou para a Galeria dos Grandes Vilões. A tensão sexual entre Xerxes e Leônidas é muito forte e acentua o clima de constante homoerotismo do filme. Gerard Butler se destaca como o grande Anti-Galã do ano, assim como foi Daniel Craig no ano passado. É um novo tipo de protagonista masculino  que acaba com o esteriótipo dos galãs engomadinhos do passado. Esse escocês do signo de escorpião é realmente um achado. Parece que ele vai protagonizar o remake de Fuga de Nova Iorque. Dizem que quando ele esteve lançando 300 no Brasil rolou um clima entre ele a Glória Maria, apresentadora do Fantástico. Será? Vc não é nem um pouco bobinha não é Glória... Abaixo uma foto do Anti-Galã Retrosexual Gerard Butler sem a maquiagem carregada do Rei Leônidas fazendo um carão do tipo “QUAL É MEU, VAI ENCARAR?”

 

Escrito por Marcelo Carrard às 10h19
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03/04/2007


MAMMA MIA !!!

Enquanto estamos condenados a viver nesse país lamentável que chamam de Brasil, onde rezamos para que um dia lancem a Obra Completa do Lucio Fulci e do Jodorowsky, inutilmente eu diria, fora os milhões de problemas que temos, na Itália está para eclodir no final de Abril o suculento, borbulhante, saboroso, mega-ultra-maravilhoso: JOE D’AMATO HORROR FESTIVAL.

Esse tradicional evento esse ano já abre chutando o balde, o bidê, o sofá e tudo mais com a exibição ao MEIO-DIA de ROSSO SANGUE aka ANTROPOPHAGUS 2 de Joe D’Amato, ta bom pra vcs? Depois é só alegria com exibições de filmes do Mestre Dario Argento, do Luigi Cozzi, do Stuart Gordon que estará por lá com uma retrospectiva de sua obra incluindo a exibição em película de seus dois episódios da série Masters of Horror e muito mais. O grande lance são as sessões Grindhouse do Festival onde serão exibidas maravilhas do calibre de Autostop Rosso Sangue de Pasquale Campanile, Woodoo Sexy Erótico (Il Pavone Nero) de Osvaldo Civriani, entre outros. Terão exibições especiais de Cannibal Holocaust, de filmes do formidável Michele Massimo Tarantini, do Rino di Silvestro e seu clássico LA LUPA MANNARA e muito, muito mais, sem esquecer de uma grande Mostra Competitiva de Curtas-Metragens dos novos talentos italianos do Cinema de Horror. O contato direto do público com os convidados rola em um evento chamado UN BICCHIERE DI VINO ROSSO CON... onde os privilegiados presentes vão tomar um bom vinho ao lado de ilustres senhores como Ruggero Deodato, Dario Argento, Stuart Gordon e outros. Ufa. Meu Deus, como é triste ser pobre nessas horas, se eu pudesse viajaria agora para lá. Nossa,  imagino eu tomando um vinho com o Dario Argento, eu ia tremer tanto de emoção que iria deixar a taça cair com certeza...

Enquanto isso no Brasil...

Escrito por Marcelo Carrard às 22h42
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02/04/2007


TIREM AS CRIANÇAS DA SALA: A ZINGU #7 JÁ ESTÁ ON LINE !!!

 

Para alegria de muitos e tristeza de alguns manés, a cabalística SÉTIMA EDIÇÃO da ZINGU está no ar. Além da hilária Carta ao Leitor do Matheus Trunk, temos como grandes destaques: O DOSSIÊ CARLOS IMPERIAL, com entrevistas, histórias, fofocas e bizarros links para o You Tube; meus textos “Extremos”: O primeiro da Coluna SUBGÊNEROS OBSCUROS onde falo dos transgressores e malditos Filmes Nunexpolitation, e na Coluna CINEMA EXTREMO onde escrevo minhas considerações sobre o  sádico e sanguinolento ALL NIGHT LONG 2. Zezé Motta aparece duplamente na Coluna Cantoras do Domingos Ruiz e na Coluna Musas Eternas, além dos sempre saborosos textos do Gabriel Carneiro, da Melody, do Raphael, do Salomão e todos os amigos da redação que orgulhosamente colocam no ar mais uma Zingu para o deleite dos leitores, sob a benção de nosso Mestre RUBEM BIÁFORA. Se joguem crianças, sem medo, a Zingu é feita para vocês...

Escrito por Marcelo Carrard às 16h46
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01/04/2007


REFLEXÕES SOBRE ‘O ANJO LOIRO” E OS DEBATES, EMOÇÕES, ENCONTROS E DESPEDIDAS DO ENCERRAMENTO DA MOSTRA DE FILMES RAROS, DE EMOÇÕES IGUALMENTE RARAS...

 

Escrevo nessa noite de 31 de março em São Paulo, minhas sinceras reflexões sobre o dia que passou, enquanto aguardo as fotos do SÉRGIO ANDRADE e contabilizo os dolorosos cinco meses de minha separação “comemorados” nessa sexta-feira, dia 30. Cheguei quase em cima da hora, por problemas de “força maior”. Encontrei o Sérgio na Biblioteca e filei um cafezinho básico, fresquinho e muito gostoso. Com a pressão em ordem após a dose de cafeína desci até a sala de exibição dos filmes onde encontrei o Vinícius, o Mestre Alfredo Sternheim, acompanhado de seu querido e fiel companheiro Antônio Carlos, além do Gil, aquele da Biografia do Sady Baby que trabalha no Diário de São Paulo. A conversa já começou a ferver antes da exibição de O Anjo Loiro, com os relatos do Sternheim sobre o encontro com um famoso Militar da Censura em Brasília no auge da Ditadura, quando O Anjo Loiro foi proibido depois de cinco semanas de muito sucesso.  Logo chegou o Matheus Trunk e se juntou ao grupo nesse bate-papo que contou ainda com a presença do Jorge Eduardo Rubies e do Rodolfo. Quase no início da exibição chegou o grande amigo Eduardo Aguilar, que eu não via pessoalmente desde o debate com a Andréa Ormond no início de março, aliás senti muita falta de minha amada Andréa hoje. Quando o filme começou, com sua brilhante trilha-sonora com uma sonoridade Lounge para padrões atuais, vemos um desfile de grandes atores onde uma belíssima e poderosa VERA FISCHER reina absoluta como uma das “Três Graças”, uma Lilith que envolve o pobre e austero professor interpretado por Mário Benvenutti, numa trama abissal rumo ao inferno da paixão.  Vemos em cena Nuno Leal Maia em sua estréia no cinema, e a saudosa Célia Helena como uma das professoras, sem esquecer do sempre talentoso Ewerton de Castro. Charmoso, classudo, genial, O ANJO LOIRO é daqueles filmes que permanecem atuais,  vivos, pulsantes. O debate depois do filme foi muito rico. O Sternheim além de um perfeito Gentleman, gosta de falar sem rodeios sobre sua obra, sem culpas ou censuras.  Sua visão sobre o Cinema de um modo geral e sobre a produção da Boca do Lixo paulistana,  é muito contundente, luminosa. Falou sobre várias curiosidades da produção de O Anjo Loiro, sobre a dupla central que inicialmente era para ter sido Adriana Prieto e Francisco Cuoco, sobre os bastidores da Censura Federal em Brasília, onde um grupo de burocratas de Direita viam os filmes censurados SEM CORTES em uma enorme sala de cinema, enquanto o público ficava no obscurantismo medieval sem ter acesso a filmes muito importantes de Mestres como Pasolini, Kubrick, Pontecorvo e dezenas e dezenas de outros, de várias partes do mundo, inclusive do Brasil, obviamente. O debate foi longo, muitas frases preciosas foram proferidas e quem esteve por lá, compartilhando aquele momento, vai ficar com essas lembranças por muito tempo guardadas no coração. Depois do momento “Fotolog Social” acabamos indo eu, o Matheus, o Sérgio, o Rodolfo e o Jorge até um bar em Moema, após enfrentarmos uma chuva terrível que se abateu sobre a cidade. No botecão em si falamos muito sobre cinema, obviamente, sobre O Cheiro do Ralo, defendido por mim e pelo Sérgio, que, diga-se de passagem, não esquece a famosa Bunda do filme até agora, aliás o Matheus quando soube da história da Bunda e de que a Susana Alves aparece no filme, ficou super empolgado e já queira ver o Cheiro do Ralo hoje, he he he... que figura. Foi um papo agradável, regado a clássica mistura cerveja com batatinha. Depois nos despedimos do Sérgio que estava quase ao lado de sua casa e voltamos com o Jorge Eduardo que levou primeiro o Matheus e depois eu até em casa, numa demonstração rara de generosidade e sincera amizade difíceis de se encontrar hoje em dia. Assim como o Matheus Trunk, o Jorge Eduardo tem uma relação muito carinhosa com a família, com os pais, os avós, ficando assim muito cristalino o motivo, a origem do caráter nobre e grandioso que eles tem, legítimos “Moços de Família”, que bom que eles ainda existem...

 

AH as fotos chegaram lá no Kino Crazy do Sérgio Andrade.

Destaco aqui duas:

 

 

Abaixo vemos o Matheus e o Sternheim na mesa durante o debate

 

Abaixo um monte de gente: o Manuel, um dos espectadores mais assíduos da Mostra, o Antônio Carlos, o Alfredo Sternheim, atrás está o Rodolfo, eu na frente e entre eu e o Jorge, atrás aparece o Paulo, do lado do Jorge vemos o Matheus Trunk, o Gil, o Edu Aguilar e o Orfeu, outra figura assídua da Mostra, no momento em que começava o temporal da tarde desse sábado...

Escrito por Marcelo Carrard às 00h41
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