MEDOS PRIVADOS EM LUGARES PÚBLICOS: Alain Resnais e a força da autoria no cinema

Nessa sexta-feira 13, o Dia Mundial do Rock, tive momentos de gratificante deleite cinematográfico. Comecei com a Cabine de Imprensa de STILL LIFE aka EM BUSCA DA VIDA, o belo filme chinês que já estava na minha lista de melhores de 2006. Revendo hoje pude analisar o filme com mais propriedade em uma cópia bem superior que a da apresentada ano passado na Mostra SP. Que filme memorável em sua narrativa de um mundo que está se desfazendo, no caso as cidadezinhas onde a mega barragem das Três Gargantas no Rio Yang Tse irá inundar tudo, num antigo e ambicioso projeto do Governo Chinês. As casas sendo demolidas, a ferrugem consumindo o metal se mesclam em imagens poéticas e desoladas com as relações humanas que também estão se desfazendo, se corroendo, simplesmente genial. Estréia dia 20 como o grande contraponto do ultra-top-blockbuster Transformers. Para a noite reservei o belo filme do Resnais que tem o mesmo título em português da peça inglesa que o inspirou: MEDOS PRIVADOS EM LUGARES PÚBLICOS. Inicialmente tinha pensado em ir ver no Belas Artes e depois sair para dar uma paquerada nas redondezas e tomar uns drinks, mas acabei desistindo e fui na sessão das 19h e 10 min, aqui ao lado de casa no Arteplex, por isso já estou postando agora, depois de jantar aqui em casa. É maravilhoso saber que Resnais, no alto da sabedoria de seus 85 anos, está em plena forma de sua autoria fazendo um filme que encanta o espectador do início ao fim com grande simplicidade, sem deixar de ser profundo, engraçado, triste, inesperado e com um grande domínio da linguagem cinematográfica. Para os que torcem o nariz para peças de teatro que viram filmes, não se preocupem, o filme vale a pena ser descoberto e apreciado com prazer. Tudo acontece num inverno em Paris onde seis personagens vivem as dores e as alegrias do amor e da solidão. Temos um casal em crise, um Bar Man, um corretor de imóveis, sua filha e uma colega de trabalho do tal corretor. Com esse punhado de personagens Resnais resume o formato original da peça que tinha um número muito grande de papéis, concentrando nesses seis protagonistas, onde o nome mais conhecido do grande público é a italiana Laura Morante de O QUARTO DO FILHO. É muito interessante o uso de “fades” feitos com sobreposições de flocos de neve. As ações são rápidas e precisas assim como os diálogos. As reviravoltas, os encontros e os desencontros, o uso do signo dos flocos de neve como configuração de um delírio na parte final, movimentos precisos e geniais de câmera, as interpretações impecáveis, a direção de arte, são alguns dos grandes motivos para não perder essa obra genial, feita por um dos maiores nomes da História do Cinema. Saí da sala de exibição satisfeito e relembrando o dia maravilhoso que tive. Pensei novamente em sair, em beber alguma coisa, mas novamente resolvi voltar pra casa, apesar de tudo, valeu a pena ficar em casa hoje, não seria legal. Talvez no domingo, quem sabe, afinal a vida ensina que muitas vezes a solidão não é tão ruim assim, ainda mais após ver dois filmes como esses de hoje...





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