Mondo Paura - Um Blog para Cinéfilos Extremos de Marcelo Carrard


15/09/2007


LO STRANO VIZIO DELLA SRA WARDH Um Giallo Soberbo de Sergio Martino

Para minha alegria chegaram hoje alguns novos e preciosos filmes para minha coleção. Começo a comentar aos poucos por aqui minhas impressões sobre essas maravilhas audiovisuais. Um dos novos itens é o primeiro Giallo dirigido por Sergio Martino, em 1970: LO STRANO VIZIO DELLA SRA WARDH aka THE STRANGE VICE OF MRS WARDH. O elenco tem uma trinca de atores antológicos do Cinema de Gênero Europeu. EDWIGE FENECH, GEORGE HILTON e IVAN RASSIMOV. A trama é muito bem construída e vai se desdobrando até se solucionar definitivamente nos últimos instantes do filme, de maneira surpreendente. Temos em cena a mistura clássica de muitos filmes Gialli: Um assassino em série que mata mulheres vestindo a clássica capa e a as luvas, navalhas e lâminas similares reluzentes e uma protagonista feminina sexualmente perturbada entre delírios e culpas. Brilhante trilha-sonora e direção de fotografia que realçam as locações em Viena e Sitges. A nudez de Fenech aparece com elegância na bela cena do bosque durante a chuva e em uma cena no toalete. Mas seu grande momento erótico ocorre em um plano onde a câmera mostra do alto seu corpo inteiro despido sob o corpo do belo amante, em um enquadramento bastante ousado para a época. A sequência do assassinato no bosque é antológica, mas a rápida cena do assassinato no chuveiro me impressionou mais. O corpo da mulher nua se banhando, a cortina transparente, o close-up da navalha e a atmosfera criada mostram as grandes habilidades do então jovem Sergio Martino como diretor. Foi uma delícia ver esse Giallo finalmente em condições excelentes de imagem em uma edição SEM CORTES. Valeu a pena esperar. Agora continuo atrás do Giallo do escorpião que ele fez, espero conseguir em breve... GRANDE SERGIO MARTINO !!!

 

Escrito por Marcelo Carrard às 16h20
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

14/09/2007


QUERÔ

Nesse fim de semana ao menos dois filmes absolutamente obrigatórios estrearam por aqui: O brasileiro QUERÔ e o francês OS ANJOS EXTERMINADORES. Por pura preguiça acabei indo ver a produção nacional pois está em cartaz aqui ao lado de casa. QUERÔ é uma adaptação da obra de Plínio Marcos. Anteriormente essa mesma obra já teve uma excelente adaptação cinematográfica intitulada: BARRA PESADA, com Stepan Nercesian e Kátia D’Ângelo, um clássico do Cinema Policial brasileiro. A importância de Plínio Marcos para o Teatro brasileiro é a mesma de Ozualdo Candeias para nosso Cinema. Ambos conseguiram construir uma poesia muito singular do mundo subterrâneo dos marginalizados, dos miseráveis e dos esquecidos. A atualidade de QUERÔ é muito contundente. A trama conta a história de um menino, filho de uma prostitua que se suicidou bebendo querosene. Desse mórbido detalhe da morte de sua mãe, que acabou surgindo o apelido Querô. No papel da mãe temos Maria Luisa Mendonça, numa performance que fica no fio da navalha entre o naturalismo e over acting. Destaque para a Dona do Bordel interpretada por Ângela Leal. Os atores jovens foram todos formados em uma Oficina de Interpretação que selecionou adolescentes, em sua maioria, de escolas públicas de São Paulo. O papel título do Herói Trágico ficou com o carismático e surpreendente MAXWELL NASCIMENTO. A qualidade desses jovens atores é muito grande. Eles inclusive fizeram um documentário sobre essa oficina de Atores que resultou no longa-metragem.  O percurso de Querô pelo Cais do Porto, entre assaltos e pequenos golpes o leva para a Febem, onde se configura sua grande  descida aos infernos. O destaque entre os internos é um baixinho muito escroto e engraçado que rouba todas as cenas em que aparece. A sequência que antecipa o estupro é muito bem desenvolvida e tem uma imagem de grande força como denúncia quando o próprio carcereiro, representante do Estado, leva Querô até a cela, sabendo que ele vai ser torturado e violentado por todos os internos. O filme mostra a jornada de violência e crimes que marcam a vida desse jovem impregnado, embebido pelo ódio. A cena do quarto da bicha Naná é praticamente igual ao de BARRA PESADA. A presença da Igreja Evangélica auxilia na atualização da trama para os dias atuais. A cena final é de grande beleza em seu delírio. O filme poderia ser mais longo e com uma violência mais gráfica, mas é uma homenagem muito sincera ao Mestre Plínio Marcos e merece ser visto. Muitos clássicos me vieram na cabeça no final da projeção como: Vítimas da Tormenta de Vittorio De Sica, Os Esquecidos, de Buñuel e o nosso Pixote de Babenco. QUERÔ poderia ter chegado ao mesmo patamar, faltou pouco, mas é um belo filme.

Escrito por Marcelo Carrard às 19h03
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

11/09/2007


O SEGREDO DE BERLIM aka THE GOOD GERMAN

Confesso que nunca gostei dos filmes de Steven Soderbergh. Sempre achei seu cinema pretensioso e seu talento ralo. O fato dele ter feito coisas abomináveis também nunca ajudaram a despertar em mim alguma simpatia. MAS hoje fui surpreendido com uma obra de intensa força, de grande inventividade, estilo e talento: o infelizmente inédito nos cinemas brasileiros: O SEGREDO DE BERLIM aka THE GOOD GERMAN. Soderbergh não apenas dirigiu, mas fotografou e montou o filme. A história ambientada na Berlim decadente do Pós-Guerra, com suas feridas sórdidas abertas, é mostrada tanto em imagens documentais como em brilhantes reconstituições de época fotografadas em Preto e Branco. Tudo parece ser uma grande homenagem aos Filmes Noir e de espionagem e mistério. A recriação de Soderbergh desses gêneros é tão brilhante como a recriação que Todd Haynes fez do Melodrama em Longe do Paraíso. O elenco tem George Clooney como um jornalista americano chegando em Berlim para cobrir a reunião dos chefes de Estado da União Soviética, do Reino Unido e dos EUA, para decidir os destinos da Europa após o final da Segunda Guerra Mundial.  A ambígua e perigosa figura feminina surge na pele de Cate Blanchett, morena e com uma atuação magnífica. Existe também uma loira perversa, obviamente, como em todo Filme Noir, além das referências muito claras dos Clássicos: GILDA e CASABLANCA, com o importante detalhe de que as personagens de Clooney e Blanchet tiveram um caso no passado...  As sombras que “pincelam” o corpo e principalmente o rosto das personagens realçam suas ambigüidades, suas mentiras, sua sordidez. Blanchett interpreta  Lena: oficialmente viúva de um oficial nazista que parece esconder muitos segredos, disputados tanto por americanos e russos. O mercado negro, a contra-espionagem, crimes, mistérios e máscaras que começam a cair, fazem parte da composição desse filme muito prazeroso de ser visto. Até Tobey Maguire, sim, ele mesmo, está ótimo no papel de um vigarista que explora Lena. A busca da personagem de Clooney por respostas é acompanhada pelo espectador com muito interesse, tudo e´muito bem amarrado e a cada sequência revelações são feitas e tornam os mistérios do filme ainda mais perturbadores e nebulosos. É muito forte o impacto da fotografia aliada à direção de arte. A arquitetura corroída pela guerra se reflete no caráter ainda mais corroído daqueles seres-humanos derrotados, que para sobreviver acabaram descendo ao mais baixo nível moral, vendendo parentes, amigos e a si próprios por um prato de comida, por um presunto do mercado negro e pelo sonho de fugir para sempre daquela Berlim que mais parece uma Cidade Fantasma. Vale a pena conferir, mesmo nessa edição mixuruca lançada em DVD no Brasil, sem extras e em Full Screen.

 

 

Escrito por Marcelo Carrard às 19h25
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

09/09/2007


ENSAIO DE UM CRIME aka ENSAYO DE UN CRIMEN

Acabei permanecendo em casa no sábado e  no domingo desse feriadão. Como grande companhia mais uma vez pude contar com os grandes amigos que habitam minhas prateleiras. Resolvi rever, depois de muito tempo, um grande filme de Luis Buñuel que sempre me intrigou pela sua originalidade, pelos mistérios de suas sombras e vertigens: ENSAIO DE UM CRIME, México, 1954.  Quando Almodóvar citou esse filme em uma seqüência de CARNE TRÊMULA, muitas pessoas que o desconheciam foram atrás desse filme de Buñuel, impressionados com as cenas perturbadoras da boneca sendo derretida pelo fogo. O filme começa com uma interessante subversão do universo infantil onde vemos o protagonista Archibaldo, ainda menino,  ouvindo uma narrativa fantástica sobre uma caixinha de música que liberta os poderes sobre a vida e a morte. Ao ver sua governanta morta, atingida por uma bala dos revolucionários, ele acredita que os poderes mágicos da caixa se tornaram reais. É absolutamente brilhante essa sequência inicial, que acaba pontuando todo o resto do filme. Adulto, vemos Archibaldo, interpretado pelo grande ator Ernesto Alonso, narrar suas obsessivas experiências com relação ao desejo de matar as mulheres que o cercam e que remetem aos desejos interditos e edipianos de infância com relação as figuras da mãe e da governanta, mostrada com mórbida sensualidade em seus delírios. Com sua navalha ele se esforça sem sucesso em suas desventuras, em seus ensaios de crimes frustrados. A figura fetichista da boneca como representação de sua paixão mórbida por uma de suas figuras femininas de estranha e perturbadora adoração, é uma composição de grande força imagética nos proporcionando grandes momentos de puro cinema de sombria poesia. Os desdobramentos da jornada de Archibaldo entre sua galeria de mulheres belas e “assustadoras” encaminham as ações para desfechos inesperados e muito interessantes onde sonho e realidade se misturam até compor a singela cena final. Uma jóia rara esse filme de Buñuel que nem sempre figura na lista de seus filmes mais celebrados pela crítica, mas que o tempo se encarregou de transformar em uma Obra-Prima obrigatória para todo cinéfilo que se preza.

Escrito por Marcelo Carrard às 15h57
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Perfil

Meu perfil
BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, CONSOLACAO, Homem, de 36 a 45 anos, English, Italian, Cinema e vídeo, Arte e cultura
Outro - mcarrard@uol.com.br

Histórico