Mondo Paura - Um Blog para Cinéfilos Extremos de Marcelo Carrard


21/09/2007


LA CRAVATE

 

Alejandro Jodorowsky  fez seu primeiro experimento audiovisual em 1957 adaptando uma Obra de Thomas Mann: As Cabeças Trocadas-Uma Lenda Indiana em Paris, que recebeu o título de LA CRAVATE. Por muitas décadas esse filme de 35 min feito por Jodorowsky era considerado perdido, até ser descoberta uma cópia na Alemanha  em 2006. Com o restauro desse tesouro da Sétima Arte podemos observar em sua plenitude o grande talento do diretor ainda jovem e filmando sem recursos financeiros e guiado pela intuição de todo Gênio iniciante. A trama é muito interessante. Em uma loja onde são vendidas cabeças humanas, dois homens chegam para trocar as suas próprias cabeças por outras, como se essas fossem objetos que podem ser facilmente encaixados e desencaixados, ao gosto do freguês. Surrealismo puro. A encenação mistura o essencialmente circense com a teatralização típica dos filmes silenciosos. A maquiagem e o figurino também remetem diretamente ao cinema silencioso e os diálogos com a pintura são muito claros. Jodorowsky não considera esse filme um grande trabalho, reconhece que era muito jovem e inexperiente, mas o Mestre Jean Cocteau após assistir LA CRAVATE o incentivou a continuar na carreira de Diretor de Cinema, conselho que foi acatado por Jodorowsky para nossa imensa alegria. O Diretor afirma que a idéia central de LA CRAVATE é  de que “Você não é um corpo que tem um espírito, você é um espírito que tem um corpo...” Amadorismos a parte o curta tem seus momentos e já indica alguns elementos que o diretor irá desenvolver mais tarde em seus longas, como o diálogo estreito entre cinema e pintura e o excessivo expressionismo dos atores, além do eternamente felliniano universo do Circo. Assim como LA CRAVATE quantos diamantes da História do Cinema ainda estão ocultos ao redor do mundo esperando para serem redescobertos?

Escrito por Marcelo Carrard às 09h10
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18/09/2007


INLAND EMPIRE

Nessa semana cheia de tarefas, entre elas a escritura dos textos para a Edição Especial de Aniversário da Zingu, aproveito para dar algumas pausas e me deliciar com belos e intrigantes filmes. Entre as novidades que se materializaram por aqui, além do Giallo de Sergio Martino: Lo Strano Vizio Della Sra Wardh e da Caixa com os filmes de Jodorowsky, se destaca a edição especial de INLAND EMPIRE de DAVID LYNCH. Enquanto a Tropa de Choque se reagrupa e mostra que está viva e forte, por aqui vejo esses filmes para ver se “aprendo alguma coisa sobre Cinema”... Ironias ácidas a parte, inicio elencando alguns adjetivos sobre esse longo (170 min) filme de Lynch: Experimental, hermético, perturbador, genial, anárquico, metalinguístico, surreal entre muitos outros. Ao descobrir as possibilidades/facilidades da Câmera Digital, Lynch se lançou em uma aventura artística inédita em sua carreira. A possibilidade de captar um volume maior de imagens fez com que o diretor tivesse um material vasto para editar o que fez com que além dos 170 min de duração oficial do filme, ainda ficassem de fora 90 min de cenas que estão nos extras do DVD. Diferentes texturas de imagens aparecem no filme onde o experimentalismo não é apenas estético, o som e a trilha são trabalhados de maneira muito criativa em todo o percurso dos perturbados personagens  dessa trama sombria e labiríntica. Uma espécie de prólogo nos mostra os corredores de um hotel, fotografados em P/B. Ouvimos um diálogo em idioma eslavo. Depois surgem os olhos de uma mulher observando uma espécie de sitcom que mostra em um plano-geral um casal conversando em uma estranha sala. O contraponto entre o close dos olhos e o plano geral é muito eficiente. Somos transportados em seguida para uma requintada sala dourada onde dois homens conversam no mesmo idioma do início que depois descobriremos que é polonês. Surge então a luz do dia, o exterior mostrando uma estranha figura feminina de rosto grotesco e sotaque carregado fazendo uma visita para sua vizinha interpretada porLaura Dern que é uma atriz prestes a iniciar um novo projeto. O diálogo entre essa estranha mulher e a personagem de Dern aos poucos ganha contornos sobrenaturais com indícios de que a visitante seria uma espécie de bruxa, que habita uma casa no bosque. Quando a visitante começa a falar sobre o filme que a atriz irá filmar, e uma história de assassinato, começamos a perceber que Lynch está começando a nos aprisionar em seu mundo onírico e sombrio de mistérios que encapsulam tanto as personagens como  o espectador em uma trama a cada cena mais perturbadora e onde os elementos surreais e expressionistas se configuram de maneira muito contundente. O diretor do “filme dentro do filme” é interpretado por Jeremy Irons. Em uma leitura do roteiro percebe-se uma presença misteriosa no local. Em seguida o diretor revela detalhes perturbadores sobre a produção. Na verdade aquele roteiro que eles estão lendo já existia, mas nunca conseguiu ser filmado porque o projeto teve de ser interrompido por causa de um incidente macabro durante as filmagens: Os dois atores principais morreram de maneira trafica... A partir deste momento o filme tem uma série de rupturas e vemos tempos  se misturando e delírios se sobrepondo em imagens de grande impacto visual. A personagem de Dern se duplica e surge em cena a trama polonesa do filme relacionada ao roteiro do filme que é inspirado em uma história popular antiga contada por ciganos circenses da Polônia. A câmera em muitos momentos está próxima do rosto e do corpo dos atores acentuando suas tensões amorosas e sexuais, além de deformar seus rostos numa confecção de “máscaras” grotescas de seus ódios, medos e agonias. Em meio ao redemoinho que envolve todas as personagens em pequenas sequências embebidas de surrealismo e longos devaneios experimentais somos guiados por Lynch como em um transe hipnótico do qual seremos despertados de maneira inusitada para logo em seguida sermos conduzidos para o abismo da eterna noite lynchiana, em seu mundo de seres fantasmagóricos e em eterno estado de delírio. As ruas de Los Angeles, a Calçada da Fama com suas prostitutas e mendigos parecem compor uma cidade fantasma, muito distante da Cidade dos Sonhos de seu filme anterior. Com certeza é o filme mais difícil, autoral e hermético de Lynch, onde ele experimentou como em nenhum de seus trabalhos anteriores. Com certeza esse é um daqueles filmes que dividirá radicalmente o público: ou será amado ou será odiado, sem meio termo. O curta da Bailarina é um espetáculo a parte com suas cenas de rara beleza onde a menina de vestido vermelho contrastante dança em meio a um cenário abstrato e preto e branco ao som de uma trilha minimalista e atmosférica. As canções de INLAND EMPIRE são ótimas e muito bem escolhidas, como nos trabalhos anteriores do diretor. Tem desde Beck até Nina Simone. O mordomo da personagem de Dern me remeteu diretamente a Sunset Boulevard. Influências claras de Bergman e até de Kieslovski são percebidas em alguns momentos. O surrealismo dos filmes de Lynch é único. Ele filma o mistério sempre envolto pelas sombras do abismo,  um ambiente que ele conhece como poucos. Mais uma vez ele é produzido pelos europeus, mais precisamente pelos franceses. Parece que a Europa Filmes já está com esse filme para lanças há meses, mas parece que só chega aos cinemas locais em novembro.

Escrito por Marcelo Carrard às 22h50
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16/09/2007


OS ANJOS EXTERMINADORES DE JEAN-CLAUDE BRISSEAU

 

Planejava ir ao cinema na tarde desse domingo, mas depois de um bate-papo com minha amiga Andréa Ormond, onde desabafei sobre uma recente desilusão com um “Falso Amigo”, fui incentivado por ela a sair de casa e encarar uma sala escura. Acabei então indo ver o maravilhoso filme do Jean-Claude Brisseau: ANJOS EXTERMINADORES. O filme é uma ficção sobre os fatos reais que ocorreram nas filmagens de COISAS SECRETAS, 2002, onde o diretor foi processado por assédio pelas atrizes do filme. Quando Coisas Secretas passou em uma Sessão Comodoro, o Carlão Reichenbach falou com entusiasmo sobre esse Anjos Exterminadores que participou do Festival de Cannes do ano passado. Para minha surpresa esse filme estreou por aqui e se tornou, para mim, uma das melhores estréias dos cinemas brasileiros de 2007, senão a melhor. O filme conta o processo de seleção de atrizes para um filme de forte teor erótico onde o diretor pretende expiar suas fantasias e obsessões sexuais. Ao seu redor surgem dois belos anjos femininos, além do fantasma da avó que o criou. O espectro da avó lhe aconselha a ter cuidado com sua curiosidade... O enredo me lembrou muito AUDITION do Miike. A busca do diretor pela atriz perfeita e os desdobramentos extremos de suas escolhas aparecem de forma muito contundente no filme de Brisseau. Uma tríade de mulheres belíssimas são as escolhidas e o método do diretor para desenvolver seu projeto consiste em Testes Eróticos onde as atrizes deverão superar seus limites com relação a suas inibições em sequências sublimes de masturbação e lesbianismo. O “Teste” feito no restaurante com as duas atrizes tirando suas calcinhas é o início de uma longa sequência onde testemunhamos uma sublime representação homoerótica feminina de tensões pictóricas onde luzes e sombras compõem um quadro vivo de duas ninfas em busca de seu gozo, do misterioso e mítico gozo feminino. A sequência do quarto de hotel onde as três mulheres se entregam ao desejo vulcânico enquanto o diretor fascinado por aquela visão capta as imagens com sua câmera, tem um poder destruidor e inquietante, babado fortíssimo, de tirar o fôlego de qualquer ser-humano com o mínimo de sensibilidade. Brisseau filma as mulheres com muito estilo, quase chegando ao nível do Mestre Walter Hugo Khouri, o cineasta que melhor soube eternizar as mulheres no cinema. As consequências dramáticas dos deslimites do corpo e da exposição física e psicológica das atrizes abre uma discussão sobre os limites da arte e sua representação. Belo, poético e perturbador: ANJOS EXTERMINADORES é uma experiência única, um deleite para os sentidos. Saí da sala de exibição do Espaço Unibanco da Augusta completamente desnorteado e ainda não me recuperei por completo do grande choque que essa Obra-prima provocou em mim. Um filme para Cinéfilos de Coração e  Olhos Livres...

Escrito por Marcelo Carrard às 00h20
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