INLAND EMPIRE

Nessa semana cheia de tarefas, entre elas a escritura dos textos para a Edição Especial de Aniversário da Zingu, aproveito para dar algumas pausas e me deliciar com belos e intrigantes filmes. Entre as novidades que se materializaram por aqui, além do Giallo de Sergio Martino: Lo Strano Vizio Della Sra Wardh e da Caixa com os filmes de Jodorowsky, se destaca a edição especial de INLAND EMPIRE de DAVID LYNCH. Enquanto a Tropa de Choque se reagrupa e mostra que está viva e forte, por aqui vejo esses filmes para ver se “aprendo alguma coisa sobre Cinema”... Ironias ácidas a parte, inicio elencando alguns adjetivos sobre esse longo (170 min) filme de Lynch: Experimental, hermético, perturbador, genial, anárquico, metalinguístico, surreal entre muitos outros. Ao descobrir as possibilidades/facilidades da Câmera Digital, Lynch se lançou em uma aventura artística inédita em sua carreira. A possibilidade de captar um volume maior de imagens fez com que o diretor tivesse um material vasto para editar o que fez com que além dos 170 min de duração oficial do filme, ainda ficassem de fora 90 min de cenas que estão nos extras do DVD. Diferentes texturas de imagens aparecem no filme onde o experimentalismo não é apenas estético, o som e a trilha são trabalhados de maneira muito criativa em todo o percurso dos perturbados personagens dessa trama sombria e labiríntica. Uma espécie de prólogo nos mostra os corredores de um hotel, fotografados em P/B. Ouvimos um diálogo em idioma eslavo. Depois surgem os olhos de uma mulher observando uma espécie de sitcom que mostra em um plano-geral um casal conversando em uma estranha sala. O contraponto entre o close dos olhos e o plano geral é muito eficiente. Somos transportados em seguida para uma requintada sala dourada onde dois homens conversam no mesmo idioma do início que depois descobriremos que é polonês. Surge então a luz do dia, o exterior mostrando uma estranha figura feminina de rosto grotesco e sotaque carregado fazendo uma visita para sua vizinha interpretada porLaura Dern que é uma atriz prestes a iniciar um novo projeto. O diálogo entre essa estranha mulher e a personagem de Dern aos poucos ganha contornos sobrenaturais com indícios de que a visitante seria uma espécie de bruxa, que habita uma casa no bosque. Quando a visitante começa a falar sobre o filme que a atriz irá filmar, e uma história de assassinato, começamos a perceber que Lynch está começando a nos aprisionar em seu mundo onírico e sombrio de mistérios que encapsulam tanto as personagens como o espectador em uma trama a cada cena mais perturbadora e onde os elementos surreais e expressionistas se configuram de maneira muito contundente. O diretor do “filme dentro do filme” é interpretado por Jeremy Irons. Em uma leitura do roteiro percebe-se uma presença misteriosa no local. Em seguida o diretor revela detalhes perturbadores sobre a produção. Na verdade aquele roteiro que eles estão lendo já existia, mas nunca conseguiu ser filmado porque o projeto teve de ser interrompido por causa de um incidente macabro durante as filmagens: Os dois atores principais morreram de maneira trafica... A partir deste momento o filme tem uma série de rupturas e vemos tempos se misturando e delírios se sobrepondo em imagens de grande impacto visual. A personagem de Dern se duplica e surge em cena a trama polonesa do filme relacionada ao roteiro do filme que é inspirado em uma história popular antiga contada por ciganos circenses da Polônia. A câmera em muitos momentos está próxima do rosto e do corpo dos atores acentuando suas tensões amorosas e sexuais, além de deformar seus rostos numa confecção de “máscaras” grotescas de seus ódios, medos e agonias. Em meio ao redemoinho que envolve todas as personagens em pequenas sequências embebidas de surrealismo e longos devaneios experimentais somos guiados por Lynch como em um transe hipnótico do qual seremos despertados de maneira inusitada para logo em seguida sermos conduzidos para o abismo da eterna noite lynchiana, em seu mundo de seres fantasmagóricos e em eterno estado de delírio. As ruas de Los Angeles, a Calçada da Fama com suas prostitutas e mendigos parecem compor uma cidade fantasma, muito distante da Cidade dos Sonhos de seu filme anterior. Com certeza é o filme mais difícil, autoral e hermético de Lynch, onde ele experimentou como em nenhum de seus trabalhos anteriores. Com certeza esse é um daqueles filmes que dividirá radicalmente o público: ou será amado ou será odiado, sem meio termo. O curta da Bailarina é um espetáculo a parte com suas cenas de rara beleza onde a menina de vestido vermelho contrastante dança em meio a um cenário abstrato e preto e branco ao som de uma trilha minimalista e atmosférica. As canções de INLAND EMPIRE são ótimas e muito bem escolhidas, como nos trabalhos anteriores do diretor. Tem desde Beck até Nina Simone. O mordomo da personagem de Dern me remeteu diretamente a Sunset Boulevard. Influências claras de Bergman e até de Kieslovski são percebidas em alguns momentos. O surrealismo dos filmes de Lynch é único. Ele filma o mistério sempre envolto pelas sombras do abismo, um ambiente que ele conhece como poucos. Mais uma vez ele é produzido pelos europeus, mais precisamente pelos franceses. Parece que a Europa Filmes já está com esse filme para lanças há meses, mas parece que só chega aos cinemas locais em novembro.