Mondo Paura - Um Blog para Cinéfilos Extremos de Marcelo Carrard


27/10/2007


SUKIYAKI WESTERN DJANGO e outras pérolas da MOSTRA SP

A chuva tem caído com força nesses últimos dias. Tenho aproveitado os poucos ingressos de meu humilde pacote com filmes felizmente muito bons em sua maioria. Na quinta vi o maravilhoso O AMOR PULSA MAIS RÁPIDO QUE O SANGUE, longa de estréia do talentoso HIDEKI  KITAGAWA, guardem o nome desse rapaz, um nome promissor do novíssimo cinema japonês.  O diretor e a simpática atriz do filme estavam na sessão. O filme é uma delirante colagem de elementos da Body Art, da Performance, onde também existem elementos da Vídeo Arte. A cena em que o protagonista masculino corta os pulsos e joga o sangue sobre uma tela branca recria o efeito do action painting de maneira perturbadora, mas o destaque é a longa e hipnótica seqüência do êxtase dos corpos dos amantes sugando um o sangue do outro... Grande filme, uma surpresa mais que agradável. Na sexta, mais um filme japa, dessa vez o maravilhoso SUKIYAKI WESTERN DJANGO do Mestre TAKASHI MIIKE. A sessão estava lotada, com a platéia mais bonita e descolada de toda Mostra até agora. Fiquei muito feliz ao ver como o MIIKE tem fãs muito jovens e que sabem tudo sobre ele. O filme é delirante em sua recriação do western com elementos neobarrocos do Mangá e dos filmes de samurai. A participação de Quentin Tarantino é imapagável e o duelo entre a espada Samurai e a pistola é sensacional. Um dos melhores filmes do ano disparado. MIIKE imprime no longa vários de seus elementos mais freqüentes: a violência, a escatologia, a sexualidade mórbida, a transexualidade e muito mais, usando com maestria movimentos de câmera inusitados e um humor contagiante... Para terminar fui hoje no Cinesesc ver a cópia restaurada de TABU de MURNAU, com acompanhamento musical ao vivo. Foi uma experiência inesquecível a de ver essa devastadora Obra de Arte Cinematográfica, nem tenho mais o que falar, estou em estado de graça completo...

Escrito por Marcelo Carrard às 19h47
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25/10/2007


O DECEPCIONANTE “ONDE ANDARÁ DULCE VEIGA?” E O DELICIOSO “HELP ME EROS”

A quarta-feira na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo foi marcada por uma decepção e uma deliciosa descoberta de um novo autor vindo da Ásia. Tinha muita expectativa sobre o filme de Guilherme de Almeida Prado, um dos maiores talentos saídos da Boca do Lixo e que fez grandes filmes no passado. A obra de Caio Fernando Abreu: Onde Andará Dulce Veiga ?, é um livro de imagens inesquecíveis, um roteiro pronto para ser filmado. Me lembro do impacto do livro em meus saudosos tempos de Faculdade e naqueles tempos já se comentava sobre uma adaptação cinematográfica da história. Somente agora surge a versão para o Cinema que tem grandes momentos, uma fotografia excelente e ótimos atores em cena. O problema mais grave é justamente a escolha equivocada da péssima atriz Carolina Dieckman para o papel da filha de Dulce Veiga. A personagem é de uma garota vocalista de uma banda Punk de São Paulo nos anos 80. A tal Carolina nem sequer se esforçou para atuar com um sotaque paulistano e fica claro que ela não pesquisou nada sobre a época, sobre a Obra de Caio, sobre o universo de sua personagem. A Lei do Menor Esforço fez com que ela afundasse o filme em muitos momentos, uma pena, Com tantas jovens atrizes talentosas no Brasil e mais particularmente em São Paulo, a escolha de Dieckman além de equivocada foi uma grande injustiça. De resto a presença de Maitê Proença é muito forte, ela é uma mulher deslumbrante e está perfeita como Diva. Cristiane Torloni está ótima em sua participação também. A sequência do ensaio da peça Beijo no Asfalto é uma das mais idênticas ao livro e a melhor do filme.  Ao acrescentar elementos “modernóides” e delírios no roteiro, o Diretor tornou o texto primoroso de Caio em um amontoado de barroquismos inúteis. Uma pena. Um grande diretor e uma boa história unidos mereciam um resultado melhor e o final do filme ainda não ajuda, é inacreditável de tão constrangedor. Sem mais comentários.

Enfrentando a chuva que caiu o dia inteiro em São Paulo e entrou noite adentro, fui na sessão de HELP ME EROS, de LEE KANG SHENG. Estava muito cansado, mas mesmo assim pude me deliciar com as imagens de grande força autoral desse nome que surge agora como um dos maiores discípulos de Tsai Ming Liang. O tema central da solidão é acompanhado pela busca do amor, a sexualidade delirante, a alegria e a amargura. Belas cenas de sexo se mesclam a momentos de muita criatividade como na seqüência onde o casal está no teto solar do carro sendo “fotografados” pelo público da sala de cinema, em um efeito inusitado e uma quebra muito bem realizada e de grande originalidade. Grande filme de um jovem talento que ainda vai nos presentear com grandes filmes.

Hoje devo ver o filme japonês extremo: O AMOR PULSA MAIS RÁPIDO QUE O SANGUE. Amanhã, sexta-feira vou ver o Western do TAKASHI MIIKE no Belas Artes, ás 22h. No sábado vou ver a cópia restaurada de TABU de MURNAU, com acompanhamento musical ao vivo, no Cinesesc. Depois da sessão vou para casa em silêncio pois deverei estar em estado de choque profundo. No domingo vou ver o filme do TODD HAYNES sobre o Bob Dylan: I’M NOT THERE, em seguida emendo com HANA do Mestre KORE-EDA e termino a noite com o badalado IRINA PALM. Felizmente consegui os ingressos na Central da Mostra, digo felizmente pois até quem tem os pacotes de ingressos estão tendo dificuldades de achar ingressos para determinados filmes.

Escrito por Marcelo Carrard às 11h00
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22/10/2007


LUST, CAUTION: A NOVA OBRA-PRIMA DE ANG LEE

Nessa segunda-feira chuvosa que rolou em São Paulo tive momentos grandiosos de puro Cinema de Autor. Inicialmente me deliciei com os seis episódios do longa O ESTADO DO MUNDO, simplesmente imperdível essa lição de radicalismo autoral somente indicado para iniciados. O episódio dos pescadores brasileiros e o da fábrica chinesa de tortura e horror são de tirar o fôlego. Mas o grande momento estava por vir. Após umas esfihas do Habib’s e uma passada na Livraria Cultura enfrentei a tensa fila da sessão do filme novo de Ang Lee, vencedor do ultimo Festival de Veneza. A sessão estava super lotada no Cinesesc e o longo tempo de espera valeu muito a pena...

Havia uma grande expectativa com relação a esse novo projeto de Lee, após o impacto do excelente BROKEBACK MOUNTAIN. Além de filmar um projeto falado em Mandarin e rodado na Ásia, o diretor optou por uma trama clássica inicialmente, homenageando os grandes clássicos sobre espionagem e histórias de amores impossíveis bem ao estilo CASABLANCA. Em LUST, CAUTION, o diretor cria uma trama surpreendente onde somos transportados para Xangai dos tempos da invasão japonesa onde um grupo de atores se lança na resistência e inicia um plano de espionagem onde temos uma bela mulher como arma sedutora para uma missão muito especial. MAS, ela se apaixona pelo homem que deveria ser eliminado e as coisas fogem do controle. Mais ou menos essa é a trama do filme, que é muito mais sofisticada e profunda do que esse resumo. Além de ser uma Aula de Direção Cinematográfica, LUST, CAUTION é carregado de imagens poderosas e virtuosas, dignas dos grandes Mestres da Sétima Arte. A fotografia de RODRIGO PRIETO, o mesmo de Brokeback Mountain, é perfeita em suas texturas singulares. A trilha-sonora grandiosa de Alexandre Desplat sublinha perfeitamente todo o filme. Além de um belo trabalho de figurino e Direção de Arte, o filme tem momentos antológicos como a brutal cena do assassinato, longa e muito impactante e as arrasadoras cenas de sexo. O encontro erótico dos amantes demora para acontecer, MAS, quando acontece a coisa é forte. Na primeira vez a coisa rola tipo “Me chama de lagartixa e me joga na parede”, babado fortíssimo. Depois os corpos em sua vertiginosa entrega ao fogo da paixão são mostrados com um requinte estético que os coloca diretamente nas melhores antologias do Erotismo no Cinema. Emocionantes, tórridas, sublimes, as cenas de sexo do filme além de impecavelmente dirigidas, ilustram muito bem os deslimites do amor em contraste ao horror e a intolerância política que acabaria jogando a China num abismo de sombras, aliás existe uma cena diante de um abismo que é bastante simbólica nesse sentido. No final do filme a platéia aplaudiu e muitos, assim como eu,  estavam com lágrimas nos olhos, com a certeza de que haviam acabado de ver O MELHOR FILME DE 2007...

Escrito por Marcelo Carrard às 00h38
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21/10/2007


MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA DE SÃO PAULO 2007 – Primeiras Impressões e futuros filmes a serem vistos

Como efeito terapêutico essa Mostra tem sido muito benéfica para mim. Ainda está no início, mas alguns filmes já me impressionaram muito. Na sexta vi o interessante filme japonês MEMÓRIA DE STEMBRO onde a tradição das máscaras do Teatro Nô ilustram uma fábula simbólica de poucos mas eficientes momentos de rara beleza. Me surpreendi com o filme alemão que passou a noite no Espaço Unibanco 3. Descontando a menininha da organização que apresentou o produtor do filme com a singela frase: “OOOOOIIII GENTE!!!” e a platéia de pós-adolescentes chatos e burros, a sessão, mesmo com problemas técnicos no início revelou uma obra de baixíssimo orçamento, filmada em seis dias e que faz uma original homenagem ao universo de Rainer Werner Fassbinder. O título do filme: OS CORPOS MORTOS DOS VIVOS é um achado. Claro que os tais pós-adolescentes nem fazem idéia de quem seja Fassbinder, uma pena. Cafona, engraçado, bizarro entre outros adjetivos, o filme tem seus méritos.

No sábado foi o dia dos veteranos como eu comentei no Post anterior. Na ensolarada tarde que se iniciava entrei na sessão lotada do filme do Rivette: NÃO TOQUE NO MACHADO, inspirado na Obra de Balzac é muito interessante, tem ótimos atores e a direção de arte não é exagerada, está inserida com equilíbrio no filme que tem imagens de muita beleza. De quebra ainda encontrei o Bruno Amato e o Michel Simões na sessão e sentamos juntos. Na saída comentamos brevemente o filme e em breve devemos nos cruzar em outros filmes.

De noite, porém, fui “atropelado” pelo excelente filme de SIDNEY LUMET: ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO. A trama se desenrola e se multiplica nas várias versões em torno dos desdobramentos de um assalto de uma joalheria. As atuações dos geniais PHILIP SEYMOUR HOFFMAN e ALBERT FINNEY são de um virtuosismo assustador, quase shakespereano em sua expiação dos “porões” da alma humana. Lumet foi tão genial nesse filme que até conseguiu fazer MARISA TOMEI atuar... hehehehe,,, que maldade, pobrezinha...

Nesse domingo tive o prazer de me deliciar com o magnífico PERDIDOS EM PEQUIM de LI YU. Esse talentoso diretor chinês ousou tanto nesse filme que provocou a ira da censura de seu país. As cenas de sexo mais insinuam do que mostram, o que consegue criar um efeito muito mais interessante no final. Sua crítica inteligente ao novo Estado de Coisas da China, com sua dicotomia: Tradição/Modernidade e o capitalismo crescente em um país comandado por um Partido Comunista é representado por personagens inquietos, amorais, sonhadores e radicalmente humanos. Além do filme ser maravilhoso, o diretor ainda coloca uma música inteira do PORTISHEAD num momento de ruptura do roteiro, além de reaparecer nos créditos finais. Saí muito satisfeito do Cinema, saciado por imagens de grande personalidade, uma característica dos filmes de YU.

De noite, no Unibanco Arteplex, rolou a sessão do filme de GREGG ARAKI: SMILEY FACE. Depois do perturbador filme anterior, Araki optou por uma comédia sobre uma aspirante à atriz que costuma abusar de substâncias ilegais. Um belo dia ela come uns bolinhos com certos “aditivos especiais” e fica completamente chapada e passa um dia de alucinantes loucuras tentando resolver seus problemas em um estado mais que alterado dos sentidos. A trilha eletrônica é muito bem selecionada e mistura hits cafonas também, além de inserir com criatividade alguns elementos de horror. A platéia de modernos que lotou a sala riu muito, um filme para levantar o astral e com uma atriz muito carismática em cena. Um bom final de domingo. Todas as sessões que fui até agora estavam lotadas.

Amanhã vou ver dois filmes: o primeiro é um longa em seis episódios dirigido por seis dos mais radicais autores do cinema atual, entre eles o tailandês de nome complicado que dirigiu os excelentes: MAL DOS TRÓPICOS e SÍNDROMES E UM SÉCULO. O título do longa é O ESTADO DO MUNDO. Depois tem sessão de luxo com o novo filme de ANG LEE: LUST CAUTION, ambos filmes rolam no maravilhoso CINESESC. Terça tenho compromissos o dia todo. Na quarta vou ver o novo longa do GUILHERME DE ALMEIDA PRADO: POR ONDE ANDARÁ DULCE VEIGA ? inspirado no livro de Caio Fernando Abreu, que é maravilhoso, diga-se de passagem. Mais tarde verei o filme chinês HELP ME EROS, de um “protegido” de Tsai Ming Liang, que parece ser muito bom. No final da semana vou tentar ver  filmes mais “horroríficos” como o japonês: O AMOR PULSA MAIS RÁPIDO QUE O SANGUE, sobre uma suicida e seu namorado que praticam “performances” de auto-mutilação, À MEIA NOITE LEVAREI SUA ALMA de José Mojica Marins, onde, antes do longa vão passar 25 min de A ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO, o aguardado novo longa do Zé do Caixão. Na sexta vão passar em seqüência os dois filmes do projeto GRINDHOUSE, na ordem correta, primeiro o do Rodrigues e depois, na sessão da meia-noite, o do Tarantino. A semana vai ser animada, se Deus quiser...

Escrito por Marcelo Carrard às 23h28
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