O PASSADO – Um Filme de Hector Babenco

A chuva que cai sobre São Paulo serviu perfeitamente como composição de minha ida ao Cinema para ver o novo filme de Hector Babenco: O PASSADO, que abriu a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo desse ano. Os dias de chuva servem muitas vezes para um recolhimento não apenas físico, mas espiritual. As nuvens carregadas, o vento, nos trazem muitas lembranças do passado e é justamente sobre essas lembranças, muitas vezes dolorosas, que se alicerça o belo filme de Babenco. Tudo começa com a comemoração dos 12 anos de casamento de Rimini, interpretado por Gael Garcia Bernal e sua mulher, com direito a exibição de um vídeo caseiro que mostra o casamento da dupla, com trilha dos anos 80 e juras de amor eterno. Mas no final da festa de aniversário eles anunciam a separação. Vemos a ciranda de amores obsessivos e intensos se desenrolar na tela entre Rimini e suas três amadas que marcam radicalmente sua vida. Rimini por outro lado marcou radicalmente essas mulheres e todas as dores e as alegrias dessa anatomia de separações, encontros e desencontros é narrada com momentos de gélida e sombria beleza. As obsessões estéticas e literárias das personagens vão da trágica história de amor de ADÉLE H, até a obra do artista plástico austríaco KLIMT, mais precisamente do quadro O BEIJO. A vertigem das paixões conduz as personagens ao abismo e a tragédia em um roteiro de elipses muito bem trabalhadas dramaticamente.O amor surge em cena como uma força devastadora da natureza ao mesmo tempo redentora e destruidora. O trabalho de Gael é muito interessante e não cai na caricatura em nenhum momento. As três atrizes argentinas são ótimas e de uma beleza singular. Elas aparecem como figuras que povoam as trevas e as luzes, como as Três Graças, a Tríade psicanalítica da Mulher, da Mãe e da Morte. O recentemente falecido Paulo Autran aparece em cena atuando em francês em uma conferência traduzida pela personagem de Gael. Muitas citações cinematográficas aparecem e Buenos Aires é mostrada sem um olhar turístico. Vemos os famosos táxis amarelos e pretos e os atmosféricos prédios antigos da capital Argentina no inverno, na maior parte do tempo. No livro que inspirou o filme, as três mulheres são muito mais trabalhadas como personagens, mas segundo Babenco o trabalho de adaptação do roteiro conseguiu colocar em cena a força dramática de cada uma. Perturbador como retrato das “fraturas expostas” de uma separação, com todos os seus horrores e toda a sua insanidade, o filme mostra o embate entre a natureza infiel dos homens com relação a obsessão romântica das mulheres e o sonho de um Happy End. Finais felizes acontecem no Cinema. Fora dele é tudo muito mais complicado... Um filme absolutamente imperdível !!!






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