Mondo Paura - Um Blog para Cinéfilos Extremos de Marcelo Carrard


03/11/2007


O PASSADO – Um Filme de Hector Babenco

A chuva que cai sobre São Paulo serviu perfeitamente como composição de minha ida ao Cinema para ver o novo filme de Hector Babenco: O PASSADO, que abriu a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo desse ano. Os dias de chuva servem muitas vezes para um recolhimento não apenas físico, mas espiritual. As nuvens carregadas, o vento, nos trazem muitas lembranças do passado e é justamente sobre essas lembranças, muitas vezes dolorosas,  que se alicerça o belo filme de Babenco. Tudo começa com a comemoração dos 12 anos de casamento de Rimini, interpretado por Gael Garcia Bernal e sua mulher, com direito a exibição de um vídeo caseiro que mostra o casamento da dupla, com trilha dos anos 80 e juras de amor eterno. Mas no final da festa de aniversário eles anunciam a separação. Vemos a ciranda de amores obsessivos e intensos se desenrolar na tela entre Rimini e suas três amadas que marcam radicalmente sua vida. Rimini por outro lado marcou radicalmente essas mulheres e todas as dores e as alegrias dessa anatomia de separações, encontros e desencontros é narrada com momentos de gélida e sombria beleza. As obsessões estéticas e literárias das personagens vão da trágica história de amor de ADÉLE H, até a obra do artista plástico austríaco KLIMT, mais precisamente do quadro O BEIJO. A vertigem das paixões conduz as personagens ao abismo e a tragédia em um roteiro de elipses muito bem trabalhadas dramaticamente.O amor surge em cena como uma força devastadora da natureza ao mesmo tempo redentora e destruidora. O trabalho de Gael é muito interessante e não cai na caricatura em nenhum momento. As três atrizes argentinas são ótimas e de uma beleza singular. Elas aparecem como figuras que povoam as trevas e as luzes, como as Três Graças, a Tríade psicanalítica da Mulher, da Mãe e da Morte. O recentemente falecido Paulo Autran aparece em cena atuando em francês em uma conferência traduzida pela personagem de Gael. Muitas citações cinematográficas aparecem e Buenos Aires é mostrada sem um olhar turístico. Vemos os famosos táxis amarelos e pretos e os atmosféricos prédios antigos da capital Argentina no inverno, na maior parte do tempo.  No livro que inspirou o filme, as três mulheres são muito mais trabalhadas como personagens, mas segundo Babenco o trabalho de adaptação do roteiro conseguiu colocar em cena a força dramática de cada uma. Perturbador como retrato das “fraturas expostas” de uma separação, com todos os seus horrores e toda a sua insanidade, o filme mostra o embate entre a natureza infiel dos homens com relação a obsessão romântica das mulheres e o sonho de um Happy End. Finais felizes acontecem no Cinema. Fora dele é tudo muito mais complicado... Um filme absolutamente imperdível !!!

Escrito por Marcelo Carrard às 18h31
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01/11/2007


UMA PAUSA PARA SAW 4

Depois de tantos filmes vistos na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo saí totalmente fora do  tumulto das filas para ver a quarta parte da saga de Horror Pop SAW aka JOGOS MORTAIS. O filme tem momentos muito interessantes que satisfazem os fãs ardorosos de Gore e seus derivados. Na abertura temos a gráfica autópsia de Jigsaw e o encontro de mais uma fita em seus estômago mostrando que os Jogos não terminaram, passando para a brutal luta de dois homens acorrentados tendo como arma um pesado martelo. O roteiro tenta explicar demais e conta vários fatos da vida de Jigsaw, sobre seu casamento, a sua primeira vítima entre outras coisas que estão no filme para criar a possibilidade da série vingar até o episódio 6 como é o projeto original. O primeiro e o terceiro episódios ainda são os meus favoritos, principalmente o terceiro, mas SAW 4 tem cenas absurdas de tortura e violência onde os mecanismos da morte criados pela mente perversa e genial de Jigsaw proporcionam momentos de satisfação total para os fãs. Destaque para a cena das facas vista na foto acima e da morte do estuprador, absurda. Como diversão funciona e só resta saber se o filme vai fazer o sucesso suficiente para ter as duas continuações planejadas. Os jogos não acabaram e o herdeiro direto do Dr Phibes ainda vai aprontar das suas com certeza...

Escrito por Marcelo Carrard às 19h54
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31/10/2007


HALLOWEEN NA MOSTRA COM BRIAN DE PALMA, IRMÃOS TAVIANI E DAVID CRONEMBERG, ALÉM DO SCREAM AWARDS 2007 !!!

Mais uma dia de muito sol por aqui. O início da tarde de Halloween foi marcada por uma inicialmente tumultuada fila para ver REDACTED de Brian De Palma. Muitos cariocas na sessão. Encontrei mais uma vez o Vébis Jr e um dos aniversariantes da semana: Sérgio Alpendre. O impacto do genial filme de Brian De Palma foi devastador. Seu violento protesto contra a Guerra do Iraque e seus dramáticos desdobramentos é muito eficiente, graças a criatividade de seu roteiro. De Palma criou o efeito da impressão da realidade utilizando várias formas de difusão audiovisual muito comuns no cotidiano de telespectadores e usuários de sites de vídeos como o You Tube. Essa impressão da realidade quase documental lembra a proposta radical de Ruggero Deodato em Cannibal Holocaust e seus falsos documentários de assustador realismo. O cotidiano de um grupo de soldados aparece em vídeos de câmeras de vigilância, em câmeras de visão noturna de tonalidades esverdeadas e em vídeos caseiros gravados pelos “soldados”. O Diretor trabalha novamente com o tema central do abuso sexual de um grupo de soldados norte-americanos contra uma jovem indefesa. Se em PECADOS DE GUERRA De Palma criou uma Obra-Prima ambientando sua trama na Guerra do Vietnã, em REDACYED o mesmo é mostrado na Guerra do Iraque. A crueldade humana parece se configurar em espirais históricas. A cena do vídeo que mostra a decaptação de um soldado norte americano por terroristas é impactante em sua crueza, mesmo sendo obviamente encenada. Daí o paralelo com Cannibal Holocaust. De um poder transformador REDACTED é um Documento grandioso, mesmo sendo de grande simplicidade formal, contra o Governo Bush e sua política  arrogante  e brutal contra um país que nunca invadiu os EUA e cujas maiores vítimas são mulheres, velhos e crianças que nem sabem ao certo o porquê daquilo tudo. Aliás fica a pergunta no ar: Por quê?

Depois de sair desnorteado do filme de De Palma, saí do Cinesesc meio sem rumo. Estava muito abalado com o filme que me emocionou e me perturbou com uma força que confesso sinceramente que não esperava... Depois de caminhar pela Paulista tomei um café e me preparei para a sessão das 17 horas do filme dos Irmãos Taviani que me surpreenderam com seu filme de maior apelo popular, o que incomodou alguns pessoas que não aceitam obras de apelo mais popular e com uma ingenuidade que já não existe. Como a trama central fala da perseguição dos armênios pelos turcos, tinham muitas pessoas da comunidade armênia no Cinesesc. Após o filme dos Irmãos Taviani veio o maravilhoso EASTERN PROMISES aka SENHORES DO CRIME de David Cronemberg. Viggo Mortensen está maravilhoso, em todos os sentidos possíveis como o mafioso russo Nikolai. A trama tem cenas de extrema violência gráfica, com destaque para a sequência da sauna que nada perde para alguns dos momentos mais inspirados de Takashi Miike. O clima de tensões homoeróticas é forte e no início temos cenas perturbadoras como a do parto da menina. Um grande filme de Cronemberg, principalmente para seus fãs mais ardorosos como é o meu caso.

E ao chegar em casa me diverti vendo o SCREAM AWARDS 2007. A divertida premiação homenageou Alice Cooper, deu prêmio de Melhor Filme de Horror para EXTERMÍNIO 2, de Melhor Direção para Tarantino e Rodrigues por GRINDHOUSE que também ganhou o prêmio de Melhor Cena de Mutilação com a impactante seqüência do ataque do carro cheio de garotas em DEATH PROOF. O Tarantino recebeu o prêmio ao lado das atrizes. A série HEROES e TRANSFORMERS levaram muitos prêmios e passaram trechos de futuros filmes como o novo de Tim Burton e THE MIST, inspirado na obra de Stephen King. Um belo Halloween nessa semana onde comemoro UM ANO de meu “divórcio”...

Escrito por Marcelo Carrard às 00h17
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30/10/2007


DESERTO FELIZ

Nessa segunda-feira tive como assistir apenas um filme na Mostra SP. Escolhi o longa de PAULO CALDAS: DESERTO FELIZ, que estava ansioso para ver desde o início do ano quando ele esteve no Festival de Berlim, e ainda mais depois do sucesso com a crítica do Festival de Gramado onde recebeu elogios entusiasmados.  Quando o Caldas dirigiu o BAILE PERFUMADO ao lado de LÍRIO FERREIRA já ficava claro o grande talento dessa geração de diretores pernambucanos que acabou gerando uma cena local que me surpreende tanto nos curtas quanto nos longas, principalmente pela qualidade dos roteiros, quanto na coragem autoral de seus realizadores. Em DESERTO FELIZ PAULO CALDAS conseguiu resultados mais satisfatórios do que seu colega Lírio Ferreira. Se em ÁRIDO MOVIE o filme peca por não conseguir concluir com a grandeza que o resto filme possui, em DESERTO FELIZ temos um resultado impecável como um todo. Caldas contou com a colaboração preciosa dos colegas MARCELO GOMES, o mesmo de CINEMA, ASPIRINAS E URUBUS e do figuraço XICO SÁ. A presença em cena da jovem atriz Nash Laila é daqueles casos onde a câmera se apaixona por uma atriz. O carisma dessa revelação do Cinema Brasileiro é muito forte e com uma interpretação visivelmente intuitiva ela consegue criar uma aura de encanto sobre sua personagem da menina prostituída nas ruas de Recife. A possibilidade de um “Conto de Fadas” surgir em sua rotina de melancolia e sonhos de menina aparece na figura do turista alemão interpretado por Peter Ketnath. A fotografia “gélida” tem momentos que vão do documental ao sublime. As elipses do roteiro são geniais, principalmente uma em particular que ocorre com o abrir de uma janela.  A seqüência que mostra uma relação sexual com close ups do rosto dos atores é perturbadora em sua composição de desespero e horror, criando um estranhamento no espectador muito positivo. Um grande filme. Surpreendente, original e que mais uma vez reforça o fato de que o melhor Cinema feito no Brasil atualmente está no nordeste, principalmente em Pernambuco. Ao contrário da parceria mais comum de outros filmecos com a Globo Filmes, DESERTO FELIZ é co-produzido pelo luxuoso Canal Europeu ARTE. Tá !!!

Escrito por Marcelo Carrard às 22h04
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29/10/2007


I’M NOT THERE, HANA e IRINA PALM: DOMINGÃO SUCULENTO NA MOSTRA SP

Nesse domingo me joguei em três sessões muito cheias e tumultuadas na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Na tarde de sol forte que iniciava rolou a tensa e longa fila para ver I’M NOT THERE de TODD HAYNES. O filme é muito prazeroso de ser visto com sua mistura de linguagens onde ficção e documentário fazem uma alegórica biografia de Bob Dylan, onde vários atores interpretam o famoso artista, entre eles CATE BLANCHETT, excelente em sua composição do personagem, performance que lhe rendeu o Prêmio de Melhor Atriz no Festival de Veneza desse ano. Lembra muito seus primeiros longas: POISON e VELVET GOLDMINE, mas Haynes vai além e cria uma obra de grande e bem sedimentada autoria. A participação de Dylan em um famoso western tem grande destaque na história que ainda cita os Beatles e mostra o impacto da apresentação de Dylan com uma guitarra elétrica. Genial. Encontrei o VÉBIS Jr na sessão super lotada do Cinesesc e a platéia estava maravilhada com o filme que acabaram de ver. A trilha é sensacional, até nos créditos finais.

Depois de um bate papo com o Vébis e um amigo dele regado a um bom café, me preparei para a sessão seguinte do dia: HANA, do Mestre HIROKAZU KORE-EDA, no Cine Bombril. A sessão estava lotada e a grande surpresa foi a presença do próprio Diretor apresentando o filme. Ele estava emocionado com a presença de tanta gente e comentou que HANA era seu primeiro filme de época, narrando uma história de samurais. Ele pretende fazer um filme sobre os 100 anos da imigração japonesa no Brasil. O filme tem as luzes e as sombras poeticamente trabalhadas de todos os seus filmes anteriores. O tema da vingança tenta criar um sublime e até bem humorado discurso contra a intolerância e a favor do entendimento entre as pessoas. De grandes momentos, o filme é encantador, uma obra de raros e nobres sentimentos e imagens inesquecíveis...

Para terminar a noite me emocionei ainda mais com o maravilhoso IRINA PALM. A presença em cena de MARIANNE FAITHFULL é encantadora. Ela faz o papel de uma avó que para salvar a vida do neto doente acaba se tornando “atendente” de um clube erótico, onde seu trabalho é masturbar homens que introduzem o pênis em um buraco. O roteiro é simples e direto, o que não tira nem um pouco a emoção e o bom humor desse filme que conquista o espectador desde o início. A trilha sonora é assinada por um tal de GHINZU, que não sei se é um projeto ou uma pessoa, desculpem minha ignorância musical. Lembra Goldfrapp e tem grande força narrativa, sendo um dos grandes destaques de IRINA PALM. Felizmente o filme foi comprado pela Imovision, absolutamente imperdível. Depois de tanta emoção em um só dia me preparo para meus 4 últimos ingressos. Vou ver hoje DESERTO FELIZ do PAULO CALDAS, na quarta verei REDACTED do BRIAN DE PALMA, A CASA DAS COTOVIAS dos IRMÃOS TAVIANI e SENHORES DO CRIME de DAVID CRONEMBERG. Tentei pela terceira vez ver PARANOID PARK do GUS VAN SANT mas os ingressos esgotaram já na Central da Mostra. Vamos ver se rola tudo sem problemas...

 

 

Escrito por Marcelo Carrard às 10h39
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