Mondo Paura - Um Blog para Cinéfilos Extremos de Marcelo Carrard


22/12/2007


ENCONTRO COM SENHORES NOTÁVEIS

Os dias que antecedem o Natal aqui em Porto Alegre tem sido de um calor intenso e implacável. Tive alguns problemas com o Micro daqui e por isso não postei antes. Ontem, sexta, dia 21, saí com o THOMAZ e o CÉSAR, ex-proprietário da Loja Planeta Proibido e atualmente "Sócio" do Sr Gúrcius, sim, aquele que mostrou a cueca para o Jodorowsky, he he he... Nos encontramos com alguns amigos na Cidade Baixa, entre as criaturas presentes: Cristian Verardi e sua Pomba, Vasco e sua Partner, o Rogério, entre outros. O Marcelo Severo não foi pois estava de Babá do seu filho, uma pena, queria muito rever o Severo que é muito gente fina. A coisa rolou até as 3 da manhã com o consumo de 27 cervejas. O Thomaz e o César estavam de táxi pois o Thomaz resolveu sair mais a vontade para poder beber e não se preocupar com bafômetros. Tirando alguns instantes que me irritaram profundamente, foi uma reunião ótima entre Senhores Notáveis, cujas qualidades nobres conseguem ocultar seus pequenos defeitos. Se não postar mais até dia 28, quando retorno para Sampa, um FELIZ NATAL para todos... 

Escrito por Marcelo Carrard às 16h56
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18/12/2007


KENNETH ANGER: SATANISMO E VANGUARDA AUDIOVISUAL

Tive acesso graças a um empréstimo momentâneo a duas compilações de filmes do notório Cineasta de Vanguarda norte-americano KENNETH ANGER, que esse ano esteve em São Paulo no início de outubro ao lado do genial multimídia Peter Greenaway. A grande ousadia de Anger já aparece em obras poderosas como FIREWORKS de 1947. Nesse curta rodado em P/B vemos delirantes imagens de um sonho de um jovem com fortes referências ao universo homoerótico de Jean Genet com o encontro noturno entre o jovem do sonho com um marinheiro. As cenas de brutalidade se mesclam gradualmente em um delírio de sangue, esperma e fogo com um resultado final impressionante para uma Obra do final dos anos 40. Entre os muitos trabalhos do Diretor me impressionei bastante com um curta rodado em um jardim italiano, intitulado EAUX D’ARTIFICE, com tonalidades monocromáticas onde as fontes e suas águas se sobrepõem às estátuas e escadarias antigas onde uma figura feminina com trajes de época caminha por esses cenários. A atriz era de baixa estatura o que deu um efeito interessante ao movimento dessa personagem. Um filme delirante e arrebatador em sua beleza. Já a partir da década de 60 a cultura lisérgica mesclada ao ocultismo começa a aparecer na Obra de Anger. Em 1969 ele lança, com colaboração do amigo MICK JAGGER, o curta satânico INVOCATION OF MY DEMON BROTHER. Jagger além de aparecer no filme criou a muralha sonora minimalista que se ouve de fundo sublinhando imagens estilizadas de rituais pagãos que culminam na aparição da figura do Diabo, com forte acento cromático vermelho. Mais clássico que esse curta, somente sua Obra-Prima: LUCIFER RISING, de 1972. Vemos em cena uma composição inicial de imagens de vulcões que iniciam um transe de imagens míticas onde a Musa dos Rolling Stones: Marianne Faithfull aparece como uma mitológica Lilith. As personagens se movem entre locações no Egito e nos monumentos de pedra de Stonehedge. Vários simbolismos ligados diretamente ao mais profundo ocultismo aparecem em cena culminando com discos voadores sobrevoando as pirâmides e a esfinge, com belas sobreposições de imagens e uma trilha sonora delirante. Sem dúvida uma experiência sensorial e espiritual singular. O próprio Diretor aparece no filme no papel de Lúcifer. No DVD Lucifer Rising está creditado como sendo de 1981, mas foi rodado em 72. Muitos dos filmes de Anger ressurgem agora após um longo processo de restauração e vale a pena conhecer seus trabalhos de imensa qualidade artística que infelizmente ainda são pouco conhecidos por aqui.

Escrito por Marcelo Carrard às 10h34
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17/12/2007


REVENDO "NASHVILLE", UM FILME DE ROBERT ALTMAN

Esse final de semana foi de intensa alegria para mim. No sábado fomos almoçar numa Cantina ótima e de preços muito interessantes no Bexiga, onde eu devorei um sensacional Filé à Parmegiana. Estávamos eu, o Beto, o Sérgio, o Marcinho, o Nelson, a Cris e a namorada. Depois fomos passear pela Pinacoteca e pelo Museu da Língua Portuguesa, foi muito legal. Nesse domingão, porém, o grande acontecimento para mim era a exibição da "Obra-Prima" de Robert Altman: NASHVILLE, que nunca foi lançado nem em VHS no Brasil, apenas nos cinemas, e que hoje passou no Telecine Cult. Vi esse filme há muitos e muitos anos atrás, com cortes, no Corujão. Hoje era a oportunidade de rever, saboreando meu café, no conforto do meu velho sofá. Começa o filme. Os créditos iniciais mostram uma imagem central na tela de um cartaz de shows w artistas de Country Music enquanto que no lado esquerdo sobem os nomes dos atores anunciados por um locutor, na formatação de uma espécie de comercial de TV de alguma coletânea musical do gênero. Vemos depois e no decorrer do filme, um carro de som fazendo propaganda política sem chamar a atenção de ninguém pelas ruas. A época em que o filme foi lançado, 1975, tem muitos significados. São os 200 anos de independência dos EUA, dois Kennedys haviam sido assassinados anos antes, o país estava traumatizado duplamente com o fracasso da Guerra do Vietnã e o Escândalo Watergate havia estourado recentemente. O clima era de esvaziamento político e de surgimento de um Cultura Histérica do Espetáculo onde a Mídia começava a sobrepor o Mundo das Celebridades sobre as questões políticas e sociais do país, um fenômeno cultural bastante presente nos dias de hoje e que Altman já antecipa em NASHVILLE. Trabalhando mais uma vez com a construção de um vasto tableau, o Diretor coloca em cena diversos personagens ligados diretamente ao tema central do filme: a indústria fonográfica de Nashville, a Capital da Música Country. Temos em cena a santificada estrela Barbara Jean, que nos bastidores vive uma crise nervosa que faz vir a tona seu lado mais infantilizado e mediocre. Temos em cena também a cantora Gospel Linnea, com um casamento frio e um filho deficiente auditivo, além de Connie, a Perua Cantora. Essas três personagens são interpretadas com muito estilo pelas excelentes: Renee Blackley, Lily Tomlin e Karen Black. Temos em cena a tragicomica Suellen interpretada por Gwen Welles, uma aspirante a cantora de imensa mediocridade artística e que se prostitui para tentar alcançar um estrelato impossível. A sequêrncia do Strip Tease de Suellen é magnífica. O filme tem grandes momentos: a cena em que é executada ao vivo a popular canção do filme: I’M EASY, a participação de Geraldine Chaplin como uma documentarista da BBC que quer fazer um documentário sobre o universo de Nashville, a cena do cemitério de automóveis e do "engavetamento" de carros, sem esquecer dos vários números musicais e a presença de atores famosos interpretando eles próprios como Julie Christie. São mais de duas horas e meia de uma aula de Direção Cinematográfica impecável e uma leitura ácida e impiedosa dos EUA com o olhar crítico e singular que só Robert Altman soube imprimir em seus filmes. A sequência final do show em frente a uma reprodução do Partenon ateniense é destruidora e inesquecível. Sem dúvida é um trabalho grandioso, um dos grandes clássicos da década de ouro dos anos 70, uma década repleta de grandes filmes.

Escrito por Marcelo Carrard às 01h41
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