REVENDO "NASHVILLE", UM FILME DE ROBERT ALTMAN

Esse final de semana foi de intensa alegria para mim. No sábado fomos almoçar numa Cantina ótima e de preços muito interessantes no Bexiga, onde eu devorei um sensacional Filé à Parmegiana. Estávamos eu, o Beto, o Sérgio, o Marcinho, o Nelson, a Cris e a namorada. Depois fomos passear pela Pinacoteca e pelo Museu da Língua Portuguesa, foi muito legal. Nesse domingão, porém, o grande acontecimento para mim era a exibição da "Obra-Prima" de Robert Altman: NASHVILLE, que nunca foi lançado nem em VHS no Brasil, apenas nos cinemas, e que hoje passou no Telecine Cult. Vi esse filme há muitos e muitos anos atrás, com cortes, no Corujão. Hoje era a oportunidade de rever, saboreando meu café, no conforto do meu velho sofá. Começa o filme. Os créditos iniciais mostram uma imagem central na tela de um cartaz de shows w artistas de Country Music enquanto que no lado esquerdo sobem os nomes dos atores anunciados por um locutor, na formatação de uma espécie de comercial de TV de alguma coletânea musical do gênero. Vemos depois e no decorrer do filme, um carro de som fazendo propaganda política sem chamar a atenção de ninguém pelas ruas. A época em que o filme foi lançado, 1975, tem muitos significados. São os 200 anos de independência dos EUA, dois Kennedys haviam sido assassinados anos antes, o país estava traumatizado duplamente com o fracasso da Guerra do Vietnã e o Escândalo Watergate havia estourado recentemente. O clima era de esvaziamento político e de surgimento de um Cultura Histérica do Espetáculo onde a Mídia começava a sobrepor o Mundo das Celebridades sobre as questões políticas e sociais do país, um fenômeno cultural bastante presente nos dias de hoje e que Altman já antecipa em NASHVILLE. Trabalhando mais uma vez com a construção de um vasto tableau, o Diretor coloca em cena diversos personagens ligados diretamente ao tema central do filme: a indústria fonográfica de Nashville, a Capital da Música Country. Temos em cena a santificada estrela Barbara Jean, que nos bastidores vive uma crise nervosa que faz vir a tona seu lado mais infantilizado e mediocre. Temos em cena também a cantora Gospel Linnea, com um casamento frio e um filho deficiente auditivo, além de Connie, a Perua Cantora. Essas três personagens são interpretadas com muito estilo pelas excelentes: Renee Blackley, Lily Tomlin e Karen Black. Temos em cena a tragicomica Suellen interpretada por Gwen Welles, uma aspirante a cantora de imensa mediocridade artística e que se prostitui para tentar alcançar um estrelato impossível. A sequêrncia do Strip Tease de Suellen é magnífica. O filme tem grandes momentos: a cena em que é executada ao vivo a popular canção do filme: I’M EASY, a participação de Geraldine Chaplin como uma documentarista da BBC que quer fazer um documentário sobre o universo de Nashville, a cena do cemitério de automóveis e do "engavetamento" de carros, sem esquecer dos vários números musicais e a presença de atores famosos interpretando eles próprios como Julie Christie. São mais de duas horas e meia de uma aula de Direção Cinematográfica impecável e uma leitura ácida e impiedosa dos EUA com o olhar crítico e singular que só Robert Altman soube imprimir em seus filmes. A sequência final do show em frente a uma reprodução do Partenon ateniense é destruidora e inesquecível. Sem dúvida é um trabalho grandioso, um dos grandes clássicos da década de ouro dos anos 70, uma década repleta de grandes filmes.