A Noite em que Voltamos até a Sagrada Boca do Lixo e Mergulhamos no delirante 200 Motéis de Frank Zappa
Senti falta da Vivi, do Edu e do Felipe Guerra que eu achei que iria encontrar na Sessão Comodoro. Os amigos compareceram e o clima estava ótimo em meio ao forte calor e o clima seco que nos assolam há dias. Foi surpreendente descobrir o Curta do Thiago Mendonça: MINAMI EM CLOSE UP-A BOCA EM REVISTA. Os depoimentos, a escolha das cenas dos filmes, o ritmo perfeito da montagem, tudo colabora para a perfeita condução desse curta com fôlego para um longa ou até uma série de documentários, com o foco na revista do Minami. Para minha geração que viu muitos dos filmes da Boca do Lixo nos saudosos cinemas do Centro, rever esse resgate da memória foi uma grande emoção. Muito talentoso esse menino, espero que ele tenha paciência e continue enveredando pelos espinhosos caminhos da produção audiovisual brasileira, talento ele já tem, coisa que muitos por aí que posam de cineastas não tem...
O filme do Zappa atraiu um público mais jovem do que eu imaginava. Gatos e gatinhas da Augusta compareceram e adoraram o filme que parece ter sido o primeiro da História a ser captado em vídeo e depois transferido para 35mm. O filme explora texturas cromáticas na época inovadoras. Um pouco longo para uma obra experimental o filme tem momentos interessantes como uma alucinante sequência de animação. As performances de Zappa e sua banda são um deleite para os fãs e ainda soam inovadoras, mesmo após tanto tempo. Para as próximas sessões dois Mestres se destacam: DAMIANO DAMIANI e JOE D’AMATO, esse ultimo pela terceira vez, pois já foram exibidos na Sessão Comodoro: BUIO OMEGA e o belíssimo filme erótico L’ALCOVA.

Já falei o que penso sobre os ataques dos conservadores e hipócritas com relação ao trabalho genial de Lars Von Trier, um dos autores mais talentosos e surpreendentes em atividade no mundo atualmente, com uma filmografia respeitável e que não faz concessões ao público e à Crítica e passa longe da “Ditadura da Popularidade”. Milagrosamente seu mais recente filme: ANTICRISTO estreou no Brasil, pensei que teria que vê-lo em alguma sessão superlotada da Mostra SP, agüentando aquele bando de pirralhos chatos metidos a Críticos que começaram a ir ao Cinema “Semana Passada” e acham que sabem de tudo... Entre os trailers que passaram antes do filme, o tal “Filme do Lula” que o Rubens Ewald Filho comentou no CQC que custou 17 milhões de reais !!! Assustador não? Também passou o trailer do elogiadíssimo DEIXA ELA ENTRAR que deve estrear em breve. O filme de Von Trier é narrado em capítulos com letras e composições que remetem ao Expressionismo Alemão. Um Prólogo em P/B com um belo tema operístico de fundo mostra o casal de protagonistas transando enquanto seu filho pequeno cai da janela. Tudo é narrado em câmera lenta com rara beleza, rara e perturbadora beleza. O primeiro capítulo já mostra o casal traumatizado pela perda trágica do filho tentando uma terapia alternativa no local mais temido pela mulher, a floresta. O filme tem uma poderosa atmosfera de tensão que percorre todo o caminho do casal em seu mergulho cada vez mais aterrador naquele universo simbólico de medo e expiação que passa a adquirir elementos típicos da Fábula e abre uma discussão sobre satanismo, sobre a natureza feminina, sobre o profano, sobre a natureza como uma entidade viva e demoníaca. Vários filmes exploraram a força narrativa dos mistérios místicos da Floresta e seu poder radical de transformação como: EVIL DEAD, AMARGO PESADÊLO, CALVAIRE, entre outros, mas o filme que melhor trava um diálogo como esse ANTICRISTO de Von Trier é: A HORA DO LOBO de Bergman.
A falta de maturidade e cultura cinematográfica de muitos, classificou o filme como “polêmico” e como: “Uma provocação”. Bobagem, a verdade é que o Cinema de Von Trier é para poucos, as tais cenas de mutilação são eficientes e sangrentas, a sequência do casal transando na floresta é brilhante em sua composição e ilustra o cartaz do filme. A sequência onde a mulher se vê do alto se mesclando ao verde da floresta é outro grande momento do filme. Atualmente poucos filmes me fazem sair de casa, esse é um deles, e foi uma experiência única: perturbadora e ao mesmo tempo sublime !!!
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