
Ao final da projeção para a Imprensa do mais recente filme de MICHAEL HANECKE: A FITA BRANCA, tive a impressão nítida de que seus filmes anteriores foram "rascunhos autorais” para que chegasse ao virtuosismo da escritura cinematográfica que ele atingiu com essa Obra Prima perturbadora e desconcertante. Após lançar seu olhar crítico, cruel para alguns, dos traumas raciais da sociedade francesa em filmes como: Código Desconhecido e Cachê, Hanecke ousou em sua leitura sobre a Gênese do Nazismo, mostrando o cotidiano de uma pequena cidade da Alemanha momentos antes da Priemeira Guerra Mundial. A fotografia sensível de Christian Berger lhe rendeu uma indicação ao Oscar 2010, e surge com uma força narrativa singular em cada enquadarmento. O filme me pareceu uma espécie de “Encontro Espiritual” entre Hanecke e Bergman, em seu mergulho nos abismos mais profundos da alma humana. A família que aparece como o centro do filme me remeteu a de LUZ SILENCIOSA de Carlos Reygadas, na composição expressionista do rosto dos atores. A presença das crianças no filme além de vital para o desenvolvimento da história revela a melhor atuação de um elenco infantojuvenil que eu já testemunhei até hoje. São momentos de forte tensão dramática onde sombras e luzes começam a revelar tudo o que está oculto naquele mundo “perfeito” onde regras rígidas de comportamento são impostas e onde a religião parece um espectro onipresente, castrador e punitivo. O castigo corporal é tolerado por todos como uma imposição quase legal, sempre com suas raízes na religião, onde o casal de protagonistas pratica o sexo praticamente vestido e onde o prazer da mulher simplesmente não existe.
Longo, com quase duas horas e meia, A FITA BRANCA é daqueles filmes que precisam ser vistos por olhos iniciados no Cinema de Autor Europeu. Clássico em sua opção pelo P/B, fica difícil destacar apenas um ou dois momentos brilhantes. As atuações são magníficas, passando longe do over acting teatral. A sequência do menino tendo o rosto enfaixado me perturbou muito, particularmente, assim como a sequência da Comunhão. A clássica voz do narrador em of também está presente. As cenas noturnas de interiores e exteriores são de rara e perturbadora beleza em um filme que não faz xonxessões ao espectador. Realmente a Palma de Ouro para A FITA BRANCA foi mais do que merecida, um filme de imagem e texto fortes, contindentes que faz valer cada centavo investido em seu ingresso de Cinema, coisa rara nos dias de hoje...


Leia este blog no seu celular